Eduardo Gudin lança disco Um Jeito de Fazer Samba
Por Bruno Ribeiro
Uma das frases célebres mais injustas de todos os tempos foi dita por Vinicius de Moraes, para quem São Paulo era “o túmulo do samba”. É certo que o próprio tempo se incumbiu de desmentir o poeta, dando-lhe um parceiro paulista para compor belos sambas no fim da vida. Toquinho não era exceção da regra. Da sua geração havia também Carlinhos Vergueiro e Eduardo Gudin, herdeiros de um tipo de samba urbano e sem muita percussão, feito para ser tocado e cantado na mesa do bar. Havia anônimos assim em toda parte, para não falar nos sambistas propriamente ditos: os ligados às escolas de samba, como Geraldo Filme, ou à malandragem autêntica das ruas do Bexiga, como Germano Mathias. E dentro desse rico universo do samba paulista, emergia a obra de Gudin nos idos anos 70 e 80. É dele a discografia mais interessante que o gênero produziu na terra da garoa depois de Paulo Vanzolini e Adoniran Barbosa. Não vinha do morro, mas sua verve cronista ajudou a trazer a vida paulistana, com seu cimento e melancolia, de volta às letras de samba. A introdução é apenas para dizer que Eduardo Gudin existiu. E, compositor ávido, continua existindo e atuando. A visibilidade na mídia pode continuar devendo espaço ao seu talento, mas o povo tem alguns de seus sambas na ponta da língua — o que assegura a imortalidade de sua obra. O presente lançamento da Dabliú Discos, Um Jeito de Fazer Samba, chega para mostrar o vigor de um trabalho nunca interrompido e reafirmar o nome do compositor entre os grandes da MPB.
Seu modo de fazer samba é peculiar e característico: ele retira o peso da “cozinha” para valorizar o canto. As letras são lapidares e a mensagem contida neles é tão ou mais importante do que a música. O CD evidencia o lado cancionista de Gudin e apresenta inéditas que nascem com sabor de velhos clássicos, como o belíssimo samba Sempre Se Pode Sonhar, escrito a quatro mãos com Paulinho da Viola e interpretado pelos dois, com a participação educada de Vânia Bastos. Em Um Jeito de Fazer Samba, Gudin canta ao lado do grupo Notícias dum Brasil, formado por instrumentistas tarimbados e as vocalistas Ilana Volcov e Selma Boragian que, apesar dos nomes estrangeiros, seguram a onda do samba fazendo um coro que é sempre complementar e nunca excedente. O repertório inaugura algumas parcerias — com Francis Hime (Moto Perpétuo) e Luiz Tatit (Sensação) — e dá seqüência à parcerias antigas, como a realizada com Elton Medeiros (Mundo) e Paulo César Pinheiro (Boa Maré). Das inéditas, o destaque é a parceria com Nelson Cavaquinho (Euforia), guardada a sete chaves até então. Entre as composições assinadas exclusivamente por Eduardo Gudin, são de beleza ímpar Praça 14 Bis, O Amor e Eu e Desprevenido.
Do começo ao fim, o CD presta homenagem à melancolia paulistana através de uma tristeza carregada de esperança e ao modo contido de fazer samba. Nem melhor, nem pior — apenas diferente, como diz o lema de uma famosa escola carioca. O preço médio do disco é R$ 23,00.