FOLHA DE SÃO PAULO, ILUSTRADA , 26/02/2001
Eduardo Gudin lança CD para ver e ouvir
CARLOS CALADO
Especial para a Folha
Painéis fotográficos, partituras, vídeos e gravações compõem a exposição "Luzes da Mesma Luz", que vai rever a trajetória musical do compositor, violonista e arranjador paulistano Eduardo Gudin, no Sesc Vila Mariana, a partir de 9 de março.
Nessa noite, no mesmo local, Gudin, a cantora Fátima Guedes e uma orquestra iniciam a temporada do show de lançamento de um CD homônimo. Editado pelo selo Dabliú, esse disco chega às lojas na próxima semana.
"A exposição funciona como uma fotografia que revela a importância de Eduardo Gudin na música popular brasileira", diz Luciana Tavares, da equipe do Sesc, que produz o evento. A carreira de Gudin poderá ser acompanhada por meio de partituras e fotos do acervo pessoal do compositor e dosfotógrafos Marco Aurélio Olímpio e Maristela Martins. Na seleção, entram imagens de intérpretes e parceiros, como Adoniran Barbosa, Nelson Cavaquinho e Paulo Vanzolini. Os primeiros discos do compositor também poderão ser ouvidos, numa cabine de som. Além de trazer quatro composições inéditas de Gudin, o CD "Luzes da Mesma Luz" destaca novas versões de suas canções mais conhecidas como "Mordaça" (parceria com Paulo César Pinheiro), "Verde" e "Paulista" (com J.C. Costa Netto), em arranjos para voz e orquestra escritos pelo próprio compositor. Apesar do evidente caráter retrospectivo desse projeto, Gudin diz que não levou em conta o fato de ter completado 50 anos de idade, em outubro último. "Tive essa idéia há um ano atrás; senti necessidade de explorar mais esse aspecto de compositor de música e letra que também faz arranjo, eu nunca tinha composto uma música só para orquestra antes", diz, referindo-se à faixa "Abertura", que vai abrir o show, como no disco. Para gravar seus 14 arranjos, Gudin fez questão de escolher grande parte dos 32 músicos da orquestra, formada por cordas, sopros e seção rítmica, especialmente para a ocasião. Nessa formação aparecem diversas feras da música instrumental brasileira, como o clarinetista Nailor "Proveta" Azevedo (da Banda Mantiqueira), o baterista Toninho Pinheiro (ex-Jongo Trio), o baixista Lito Robledo, o trompetista Daniel Alcântara e o saxofonista Vinícius Dorin (os três da big band Bissamblazz). "A orquestra atua bastante no disco, funcionando como parceira da cantora nos arranjos. Corri o risco de escrever muitas notas e atrapalhar a melodia, mas deu certo", afirma o compositor. Todos os arranjos, escritos ao longo de quatro meses, são inéditos. "Fiz questão de que tudo fosse novo. Eu escrevi esses arranjos pensando também nos shows", diz o músico.
Já a parceria de Gudin com a cantora e compositora carioca Fátima Guedes, inaugurada com a gravação desse disco (nos estúdios do próprio Sesc Vila Mariana), aconteceu a partir de uma tirada do acaso. "Eu tinha algumas cantoras em mente para a gravação, como Leila Pinheiro, Vânia Bastos e Mônica Salmaso, mas um dia ouvi a Fátima no rádio, cantando um samba. Fiquei tão impressionado que liguei logo para ela", conta o compositor. Lembrando que Fátima aceitou seu convite para gravar o
CD antes mesmo de ouvir os arranjos, Gudin elogia a competência da cantora. "Ela não tem problema algum de afinação. Quando pede para gravar de novo é para interpretar de um modo diferente." No show, os dois vão apresentar a primeira composição que fizeram em parceria, logo após a gravação do CD. Segundo Gudin, trata-se de uma canção bem romântica, que ainda tem o título provisório de "Eu Te Amo".
Caracterizando o CD "Luzes da Mesma Luz" como uma virada de página em sua carreira, Gudin já começa a vislumbrar seus próximos passos musicais. "Agora dá vontade de fazer outros dez sambas com o Paulo César Pinheiro para um novo disco. Mas, ao mesmo tempo, também quero compor mais para orquestra. Tomara que eu possa fazer as duas coisas."
Compositor chega à maturidade
Eduardo Gudin revela em seu novo trabalho que atingiu um estágio criativo com o qual sonham todos os grandes compositores de música popular: o da autoria integral, em termos de melodia, harmonia, letra (caso de quatro faixas deste disco) e, finalmente, da concepção do arranjo. Tudo isso com um indiscutível grau de excelência musical. Não é à toa que "Luzes da Mesma Luz" (seu 13º disco de carreira) soe tão orgânico, tão homogêneo e íntegro, na relação dos formatos clássicos do samba e da canção com a linguagem e as texturas sonoras da orquestra. Quem conhece "Balãozinho" (1986), que primeiro sinalizou sua guinada para uma concepção musical mais instrumental, vai perceber que, apesar de ter gravado apenas cinco discos desde então, Gudin atingiu a maturidade como arranjador e compositor. Basta ouvir sua intrigante "Abertura", composição instrumental inédita que, de certo modo, sintetiza seu universo musical, alternando levadas de samba, com passagens mais românticas. É um dos pontos mais altos (e eles são vários) desse novo disco. A escolha de Fátima Guedes, para os vocais, também se revelou um grande acerto. Cantora madura e compositora consagrada, ela consegue que canções de Gudin marcadas no passado por gravações de cantoras de talento, como Vânia Bastos ("Paulista"), Leila Pinheiro ("Verde") e Mônica Salmaso ("Luzes da Mesma Luz"), soem com novo frescor. Afinadíssima, Fátima enfrenta com muita segurança e estilo uma verdadeira prova de fogo: a acidentada melodia da bossa vanguardista "Ângulos" (de Gudin, Arrigo Barnabé e Caetano Veloso). Esbanja emoção e sensibilidade na bela "Canção Serena", outra inédita de Gudin.
A exemplo do que já acontecera no álbum "Eduardo Gudin & Notícias dum Brasil" (de 1995), Gudin voltou a ilustrar o encarte de seu disco com seis obras visuais do artista plástico Cláudio Tozzi. Tudo a ver com um compositor orgânico, que até no aspecto visual gosta de se identificar com o que emoldura sua música. (CC)
Luzes da Mesma Luz
Ótimo
Intérpretes: Eduardo Gudin, Fátima Guedes e orquestra
Produção e arranjos: Eduardo Gudin
Lançamento: Dabliú
Quanto: R$ 20, em média