O IMPARCIAL, CARTAZ , Sábado, 16 de junho de 2001

                                           

  Cultura e Lazer - MÚSICA - Referencial

                                    

 

E lá vêm vindo os nossos anéis...

Teroca

Colaborador

 

 

 

“Lá se vão meus anéis, diz o refrão

          Mas meus dedos são dez duas mãos...”

                    (E LÁ SE VÃO MEUS ANÉIS – Eduardo Gudin/P. C. Pinheiro)

 

 

        A história musical do focalizado de hoje começa no finalzinho da década de 60, início da de 70... Época do IV Festival Universitário de Música Popular Brasileira... Eduardo Gudin, então estudante de Engenharia, se lançou ao mar da M.P.B. junto com seu contramestre e contemporâneo Paulo César Pinheiro, poeta que havia desabrochado um pouco antes, em 1968, na Primeira Bienal do Samba com “Lapinha”, musicada por Baden Pawell e interpretada pela já famosa Elis Regina... Ditadura Política, efervescência cultural, período de ouro na nossa música, extremamente decantado aqui nesta coluna números variados anteriores...

    Quem levou “os anéis” do Gudin ao ar foram os inesquecíveis Originais do Samba, cuja equipe se escalava com Rubão (surdo), Bidi (cuíca), Chiquinho (ganzá), Mussum (reco-reco) – todos falecidos – mais Bigode (pandeiro) e Lelei (tamborim)... Hoje esse tradicional grupo é um arremedo do que fora naquela época, enveredando pelos caminhos do pagode-rima-paupérrima... Ditadura cultural, efervescência política, período de lama na nossa música, também sistematicamente reverberado por nós, que ainda acreditamos na verdadeira MPB de qualidade...

    Mas apesar da lama que bóia na mídia, aprendizes que somos dos ensinamentos de Naná Vasconcelos – que abraça uma comunidade do mangue pernambucano e os ensina a extrair do lamaçal os melhores caranguejos, as melhores ostras que, ao se darem tempo, estarão novamente “gerando pérolas finas”, conforme cantavam os integrantes do Conjunto Nosso Samba, contemporâneo dos Originais – estamos hoje trazendo até vocês uma pequeniníssima resenha de uma dessas grandes pérolas – paulista por sinal – o violonista, compositor e arranjador Eduardo Gudin...

    Gudin percebeu e foi percebido pelo sucesso em 1975, quando lançou um documento sonoro (chamar aquilo apenas de disco seria um minimalismo) junto com o parceiro Paulo César Pinheiro, contando ainda com a voz rouca de Márcia, intitulado “O importante é que a nossa emoção sobreviva”, nome retirado de um verso da canção “Mordaça”, constante nesse trabalho. Daí em diante vieram outros trabalhos fenomenais como “Fogo Calmo das Velas”, onde Gudin se mostra um chorão dos maiores com a faixa “Pensamento”; “Ensaio do Dia”, do qual se ouve um “Documento” detonador; “Coração Marginal”, de onde se extraem símbolos de qualidade como “Velho Ateu” e “Mente”, esta, parceria com outro paulistano Paulo Emílio Vanzolini, que num intervalo de suas aulas de entomologia, letrou a melodia perfeita (Mente, ainda é uma saída, é uma hipótese de vida...)

    Ficou um pouco esquecido pelo final da década de 80 e início da década de 90 (esquecido no sentido de sua produção, não de sua divulgação que, como para quase todos os compositores de qualidade, deixou simplesmente de existir pelos motivos já execrados aqui), quando então retoma o pique e produz pela gravadora Velas outro documento chamado “Eduardo Gudin & Notícias dum Brasil”, 1994, no qual lança de uma só vez “Nobre Sentimento”, “Paulista”, “Obrigado”, “Luzes da Mesma Luz” e, de quebra, apresenta a voz indescritível de Mônica Salmaso (segundo ela própria nos confessou, o disco demorou bem uns 4 anos até que todas as vozes se encaixassem com os instrumentos e arranjos, por sinal, um dos grandes talentos do perfeccionista Gudin)...

    Vem 1966 e, ainda pela Velas, reformata o “documentário” inicial de 1975 e o reintitula “Tudo o que mais nos uniu”, outro verso do mesmo poema musical “Mordaça”, cantando toda a sua trajetória (e de Paulo César Pinheiro) numa gravação também ao vivo (como fora o original),  com direito a “E lá se vão meus anéis” e “Verde”, canção esta que, feita em parceria com Costa Netto, revelou a paraense Leila Pinheiro ao público no tempo das “diretas já”... Chega 1999 e o sambista Gudin (com toda a honra) produz o belíssimo “Pra Tirar o Chapéu”, com sambas lindíssimos como “Violão Gentil”, “Refaz”, “Das Flores” e até valsas como “Etérea”, parceria com o “violão da vez” Guinga. Disco de tirar o chapéu e o fôlego também, onde primam os arranjos perfeitos e sua vocalização com Maria Marta, Luciana Alves e Edson Montenegro... Finalmente, chegamos a 2001 e, ânimo redobrado, Gudin se junta a Fátima Guedes e lançam pela Dabliu Discos (do parceiro e advogado Costa Netto) o CD “Luzes da Mesma Luz”, com reprises de seus sucessos e até uma inédita (e diferente, para não dizer estranha) “Ângulos”, em parceria com Arrigo Barnabé e Caetano Veloso...

    Prestem atenção... É este grande artista que, junto com Fátima Guedes, estará visitando o SESC daqui na próxima sexta-feira, 22 de junho, para lançamento deste último e sublime trabalho... Você que já o conhecia, me desculpe pela síntese que tentei fazer... É claro que você deverá prestigiar o show... Agora... Você, que por acaso está lendo esta coluna e nunca tinha ouvido falar dele (provavelmente pelos mesmos motivos...), reserve a sexta que vem, 20:30h, e terá uma surpresa agradável... Conhecer um verdadeiro compositor popular, que domina e dosa na medida exata o popular e o clássico... Espalhe... Vamos juntar nossos anéis... O elo musical brasileiro ainda não está perdido... Certifique-se...