FOLHA DE SÃO PAULO, ESPECIAL CARNAVAL, 21/02/1993

 

 

Eduardo Gudin,

Especial para a Folha

 

 

Samba cede lugar às marchas

 

“A Vila Isabel é a velha escola do samba-enredo na avenida. O deste ano é ótimo. Tem todos os elementos do gênero, além da inspiração. A Mangueira traz um enredo difícil para um samba. Seu rendimento vai depender muito do desfile, embora o refrão possa contagiar. O da Beija-Flor sugere um bom desfile, dando uma noção de como vai ser a escola na avenida. O samba da Imperatriz vem num bom andamento, mas a melodia é pouco original”.

Eduardo Gudin, 42, compositor e violonista.

 

Antes de dizer alguma coisa sobre os sambas do Rio de Janeiro para o Carnaval deste ano, faço algumas considerações sobre o assunto “samba”.

A melancolia do samba, igual àquela dos blues e da música negra em geral, unida a uma alegria envolvente, fazem, na minha opinião, a mistura exata que só o samba tem. E isso, entre outras razões, por causa de sua cadência.

À medida que o samba se torna muito rápido pode perder seus desenhos básicos (semi-colcheias e colcheias alternando-se), aumentando o número de colcheias no lugar das semi-colcheias para que se possa articular a letra.

Isso leva o samba a ficar cada vez mais parecido com a marcha, perdendo a melancolia e tendo a característica mais da “farra”.

Não se deve ouvir e analisar estes sambas novos querendo encontrar o blues dos grandes sambas-enredos de Silas de Oliveira. Corre-se o risco de não gostar de nenhum.

Vou comentar os sambas deste ano pensando em sua função dentro do desfile e da festa como hoje ela se apresenta. A última palavra é do leitor.

No samba “A Dança da Lua”, da Estácio de Sá, encontram-se os elementos básicos de um grande samba. Talvez falte um pouco mais de tempo para respirar entre uma frase e outra. Isso a avenida vai confirmar ou não. O “Marquês que é Marquês do Sassarico é Freguês”, da Imperatriz, vem num bom andamento, faltando um pouco de originalidade na melodia.

Parece-me que “Cerimônia de um Casamento”, o samba da Portela, está um tanto aprisionado pelo enredo, tentando cumprir sua função. Não dá para avaliar separadamente do desfile.