Folha de São Paulo, 30 de dezembro de 1986

A face instrumental de Gudin
Carlos Calado
 
Voar pelo tempo até o fim/ Olhar o futuro e ver Jobim”, assim começa “Balãozinho”, a faixa - título que abre o oitavo disco de Eduardo Gudin. A escolha de uma bossa nova, a interpretação intimista dividida com a voz suave da cantora Eliete Negreiros, a companhia de músicos marcadamente ligados á música instrumental como Arismar do Espírito Santo (baixo) Michel Freidenson (teclados) e Edson Alves (flautas e regência). Além de um naipe com doze cordas, já revelam logo de cara uma flagrante mudança. O conhecido sambista resolveu mostrar seus outros lados. A referência ao futuro e Tom Jobim é quase um slogan.
Gudin tem a seu lado as importantes participações de Hermeto Paschoal, Arrigo Barnabé, Heraldo do Monte, além das vozes de Vânia Bastos, Grupo Canto a Canto, e Eliete Negreiros. Na companhia desse elenco de estrelas, o compositor violonista e cantor altera trajetória de sua carreira musical.
MUITAS PARCERIAS
Eduardo Gudin estreou profissionalmente em 66, na época dos festivais, onde suas composições receberam vários prêmios. Uma das mais conhecidas é “E Lá se Vão Meus Anéis” (em parceria com Paulo César Pinheiro), que venceu o festival da TV Tupi, em 71. Desde então gravou sete discos compondo ao lado de parceiros famosos, como Adoniran Barbosa, Adir Blanc, Paulo Vanzolini, e Fernando Brant, entre vários outros.
Duas faixas deste disco ainda guardam o som mais característico desses quase 20 anos. O samba “Férias” “(Gudin e J. Petrolino)” tem a participação de Vânia Bastos sempre afinadíssima e “Verde” (Gudin e Costa Netto), finalista do Festival dos Festivais da Globo no ano passado vem nas vozes do conjunto Canto a Canto. Somadas a “Balãozinho”, elas são as únicas faixas cantadas do LP ao contrário das 5 restantes.
DEDO DE ARRIGO
“Bem-Bom” e “Cidade Oculta” são frutos da produtiva parceria que Gudin vem realizando com Arrigo Barnabé. A primeira foi gravada por Gal Costa, dando título ao seu LP mais recente. O dedo de Arrigo poder ser sentido nas frases de piano e na construção melódica do tema quase cantado pela guitarra de Heraldo do Monte. O resultado e instigante, misto de samba, bossa nova e sonoridades contemporâneas. Já “Cidade Oculta” é o tema do filme homônimo de Chico Botelho ainda em cartaz. O arranjo, onde predominam as cordas e oboé de João Cuca cria maior dramaticidade do que nas duas versões da trilha sonora original. O sax – alto de Roberto Sion ressalta ainda mais a beleza da melodia e o clima emocional.
Dedicado a Hermeto Paschoal, o disco tem um de seus momentos mais inspirados na faixa “Choros”, arranjada pelo “Bruxo” que também sola ao piano. Hermeto juntou a seu grupo uma espécie de orquestra de câmara, com diferentes sopros e cordas. Na verdade, são três choros “Te Rever” “Proezas do Coração” e “Águas Passadas” – que acabam transformados numa suíte. O arranjo alterna intervenções de instrumentos mais característicos do choro (como a flauta e cavaquinho) ao fagote, trompas e cordas. Coisas de Hermeto, sempre original. E a homenagem de Gudin só vem referendar seu novo caminho. CC