O ESTADO DE SÃO PAULO- Caderno 2, 09 de março de 2001

As luzes de Eduardo Gudin e Fátima Guedes                                               
Eles fazem três shows, de hoje a domingo, no Sesc Vila Mariana, para lançar o disco "Luzes da Mesma Luz", que traz composições de Gudin na interpretação definitiva dada por Fátima
Mauro Dias

 

Eduardo Gudin e Fátima Guedes são duas almas delicadas.
Dois artistas que vivem pelos sentimentos nobres que expressam - em canções de amor ou de crítica, de súplicas ou tomadas de posição. Gudin, mais antigo no cenário, era e é um dos ídolos de Fátima. Ela sempre foi uma das autoras-cantoras que ele mais admira.
Em janeiro, eles gravaram, pela Dabliú, com patrocínio do Sesc, um disco juntos. Chama-se Luzes da Mesma Luz: Eduardo Gudin & Fátima Guedes - Voz e Orquestra. São músicas dele interpretadas por ela, com arranjos dele. O show de lançamento oficial do disco estréia hoje, no Sesc Vila Mariana, em cujos estúdios a obra foi gravada.
O espetáculo, dirigido por Fernando Faro, tem reprises amanhã e domingo.
Para o repertório do disco - que é apresentado integralmente no show -, Eduardo Gudin escolheu as músicas que considera mais representativas de sua carreira, como Verde, Mordaça, O Velho Ateu, mais quatro trabalhos novos, entre eles uma peça orquestral. Em cena, com Gudin ao violão e Fátima cantando, estará orquestra de 20 músicos - cordas e sopros - mais o grupo de base formado por Lito Robledo (contrabaixo), Luís Carlos de Paula e Jorginho Cebion (percusssão) e Toninho Pinheiro (bateria).
Não há piano, na formação. Eduardo Gudin é violonista e quis que seu instrumento fosse o centro do conceito da orquestração. Com isso, construiu uma estrutura sonora cuja leveza remete a espaços abertos, traz luz de liberdade, soltura. Pois a música de Gudin trata disso mesmo - de libertações, tanto pelo amor quanto pelo fim dele, ou pela presença ou ausência de outras forças que nos ocupem a sensibilidade, a inteligência. "Ele consegue ser ao mesmo tempo sofisticado e popular", diz Fátima Guedes do companheiro de disco e palco. "Eu bebi nas águas dele, nos anos 70 e 80, enquanto me formava, eu mesma, como compositora", acrescenta. Diz que uma das músicas que mais marcaram sua vida foi Mordaça, de Gudin e Paulo César Pinheiro. Não só a vida dela, mas de quem quer que tenha vivido aqueles anos sombrios do regime militar. É uma canção pesada, um samba lento cujas frases melódicas desenvolvem-se do agudo para o grave - mas que, como tudo o que é de Gudin, aponta um caminho: "... seja lá como for/ O importante é que a nossa emoção sobreviva".
Luzes e sombras como as desses versos influenciaram - como ela mesma diz - a adolescente compositora, que surgiu cantando verdades espantosamente maduras. A arte de Fátima só fez sofisticar-se, e seu canto alcançou o sublime, com a voz mais carregada nos graves que acentuam a seriedade com que encara vida e ofício.
Luzes da Mesma Luz, composições, orquestrações e interpretações do disco - que o show repetirá -resumem, em voz definitiva, a obra de um dos maiores compositores da música brasileira. O painel completa-se com exposição de obras de arte que ilustram o encarte do disco e de fotos - álbum de família, parceiros -,partituras e da fortuna crítica de Eduardo Gudin, instrumentista, compositor, arranjador, poeta, artista completo.