| Eduardo
Gudin e Fátima Guedes são duas almas delicadas.
Dois artistas que vivem pelos sentimentos nobres que expressam - em canções
de amor ou de crítica, de súplicas ou tomadas de posição.
Gudin, mais antigo no cenário, era e é um dos ídolos
de Fátima. Ela sempre foi uma das autoras-cantoras que ele mais
admira.
Em janeiro, eles gravaram, pela Dabliú, com patrocínio do
Sesc, um disco juntos. Chama-se Luzes da Mesma Luz: Eduardo Gudin &
Fátima Guedes - Voz e Orquestra. São músicas dele
interpretadas por ela, com arranjos dele. O show de lançamento
oficial do disco estréia hoje, no Sesc Vila Mariana, em cujos estúdios
a obra foi gravada.
O espetáculo, dirigido por Fernando Faro, tem reprises amanhã
e domingo.
Para o repertório do disco - que é apresentado integralmente
no show -, Eduardo Gudin escolheu as músicas que considera mais
representativas de sua carreira, como Verde, Mordaça, O Velho Ateu,
mais quatro trabalhos novos, entre eles uma peça orquestral. Em
cena, com Gudin ao violão e Fátima cantando, estará
orquestra de 20 músicos - cordas e sopros - mais o grupo de base
formado por Lito Robledo (contrabaixo), Luís Carlos de Paula e
Jorginho Cebion (percusssão) e Toninho Pinheiro (bateria).
Não há piano, na formação. Eduardo Gudin é
violonista e quis que seu instrumento fosse o centro do conceito da orquestração.
Com isso, construiu uma estrutura sonora cuja leveza remete a espaços
abertos, traz luz de liberdade, soltura. Pois a música de Gudin
trata disso mesmo - de libertações, tanto pelo amor quanto
pelo fim dele, ou pela presença ou ausência de outras forças
que nos ocupem a sensibilidade, a inteligência. "Ele consegue
ser ao mesmo tempo sofisticado e popular", diz Fátima Guedes
do companheiro de disco e palco. "Eu bebi nas águas dele,
nos anos 70 e 80, enquanto me formava, eu mesma, como compositora",
acrescenta. Diz que uma das músicas que mais marcaram sua vida
foi Mordaça, de Gudin e Paulo César Pinheiro. Não
só a vida dela, mas de quem quer que tenha vivido aqueles anos
sombrios do regime militar. É uma canção pesada,
um samba lento cujas frases melódicas desenvolvem-se do agudo para
o grave - mas que, como tudo o que é de Gudin, aponta um caminho:
"... seja lá como for/ O importante é que a nossa emoção
sobreviva".
Luzes e sombras como as desses versos influenciaram - como ela mesma diz
- a adolescente compositora, que surgiu cantando verdades espantosamente
maduras. A arte de Fátima só fez sofisticar-se, e seu canto
alcançou o sublime, com a voz mais carregada nos graves que acentuam
a seriedade com que encara vida e ofício.
Luzes da Mesma Luz, composições, orquestrações
e interpretações do disco - que o show repetirá -resumem,
em voz definitiva, a obra de um dos maiores compositores da música
brasileira. O painel completa-se com exposição de obras
de arte que ilustram o encarte do disco e de fotos - álbum de família,
parceiros -,partituras e da fortuna crítica de Eduardo Gudin, instrumentista,
compositor, arranjador, poeta, artista completo. |