| EDUARDO GUDIN |
Gilberto Nahum |
| (FOLHA DE SÃO PaULO, 03 de julho de 1973) |
Gudin,
nunca poderia pensar que um dia fosse escrever sobre seu LP. Aquele disco
que nós tanto discutimos durante muitas noites entre um chopp gelado
(da Brahma, lembra) e umas pingas para quebrar o gelo, mas que acreditávamos
que ainda demoraria um pouco mais para sair. Você sempre mereceu
esta oportunidade e pode estar certo: ela chegou. A produção tinha de ter o Fernando Faro (Né Baixo?) e com os palpites honestos de letras lindas do Paulinho César Pinheiro. Enquanto ouço você e a Jane cantando “Olha o que ela Fez” lembro aquela tarde junto aos corredores da TV Tupi, antes de um desses festivais (era o universitário) que você acabou ganhando, quando me mostrava a letra da música que julgava ser um sucesso: “Lá se vão meus anéis...”. Pois é Gudin, seu disco está com uma força incrível. Você está chegando para ocupar seu lugar na música popular brasileira. Um grande sambista urbano, falando das nossas coisas com muito carinho e muita melodia. O trabalho não pode ser visto separadamente. Todas as faixas desse disco devem ser esperadas e curtidas. Cada tom, cada palavra. Ele é todo beleza, desde os dias da gravação quando você havia almoçado muito e não conseguia cantar suas coisas. – Puxa Faro, acho que hoje não vai dar, a feijoada está pesando muito. – Ta legal Baixo, a gente deixa pra quarta-feira que vem. Os dois deixaram o estúdio e com o violão debaixo do braço, você deve ter parado no primeiro boteco e começado novamente a cantar, descontraído, com toda a beleza de suas harmonias no violão, como acontecia naquelas noites no Bar do Tobias. “Dia de Muito é Véspera de nada”, letra de Paulo César Pinheiro, uma das mais importantes de seu trabalho. Seu disco está completo, meu velho. Isso sem falar de “Nem Réu nem Juiz” que a Carmen Costa já havia gravado e que você compôs com o Carvalho. Está lindo. O violão perfeito, o coro muito bem ajustado e os arranjos valorizando muito as músicas, mas nunca se sobrepondo, lhe dará a possibilidade de, com a voz bastante pequena, mostrar suas grandes coisas. O arranjo de Hermeto Pascoal para “Choro do Amor Vivido” onde Gudin aparece tocando seu violão com muita beleza é muito bom e deu destaque ao solo. A capa e contra capa de muito bom gosto. Apenas um pequeno erro: a impressão das letras em azul claro dificulta a leitura. Gudin, boa sorte, seu disco, um dos melhores do mês, tem tudo para ser um sucesso: principalmente, qualidade e músicas de alto nível. Um abraço. |