FOLHA DE SÃO PAULO, 31 de agosto de 1981

 
Eduardo Gudin agora também “independente”

 

 

Não sem bons motivos, o cantor, compositor e violonista Eduardo Gudin estava há três anos afastado de gravações: insatisfeito com os rumos que o seu relacionamento com as gravadoras vinha tomando, decidiu refugiar-se em casa, dedicar-se mais aos estudos de música, repensar seu próprio trabalho. O resultado desse balanço de carreira está no LP “Fogo Calmo das Velas”, que ele lança hoje, das 19 às 20h30, no bar Engenho e Arte (rua Bela Cintra, 2.102). Uma reconciliação com as empresas fonográficas?

Nada disso: Gudin preferiu fundar com amigos a Realejo Produções Artísticas, Disco e Fitas Ltda., para produzir seu quinto LP, desta vez em caráter independente. “Independente mesmo, da gravação à distribuição”, conta ele. “Este não é um trabalho impossível de se realizar, com bons resultados. Até o momento, a receptividade entre os revendedores tem sido muito acima da expectativa.” Mais um motivo de satisfação para Gudin e uma forma de se reconciliar com o disco.
“Eu estava profundamente decepcionado com as gravadoras. O artista não é mais do que uma cifra, no balanço final, por causa do desespero criado pela necessidade de consumo imediato. A situação atingiu tal gravidade que, na estrutura dessas empresas o diretor de marketing tornou-se mais importante do que o diretor artístico. Mas a música jamais poderá ser tratada como um produto apenas.”

Durante esses três anos de recolhimento, Gudin continuou a dar aulas de música, a fazer shows e, acima de tudo, a procurar novas formas de expressão em suas composições. “Como havia tempo de sobra, pude depurar meu trabalho ao extremo. Só dava algo como acabado quando realmente senti que o resultado estava me satisfazendo. Além disso, procurei ampliar meu contato com outros compositores, já que nos últimos tempos meu companheiro mais constante era o Paulo César Pinheiro.”
Tanto que, em “Fogo Calmo nas Velas”, surgem novos e igualmente importantes parceiros. Com Rui Guerra, por exemplo, ele fez “Olhos Frios”; com Aldir Blanc, “É Reatando que a Gente se Estrepa”; com Sérgio Natureza, “Anúncio Classificado”. Há também composições com Cacaso e Paulo César Pinheiro, claro. Gudin relembra ainda uma das muitas músicas esquecidas de Garoto – “Lamentos do Morro” – uma das duas faixas instrumentais do disco. O LP tem como convidados especiais o conjunto MPB 4, Márcia, Paulinho Nogueira, Roberto Sion, Celso Machado, entre outros, com direção geral de Otávio Martins. A capa é de Elifas Andreato, gente que, segundo Gudin, “deu uma grande força na base da amizade. Sem acolaboração deles, seria impossível gravar este disco.”