(Folha da Tarde, 26 de abril de 1974)

 

EDUARDO GUDIN NO TUCA, MUITO BEM ACOMPANHADO

 

   "Uma mistura de informal com ensaiado" É assim que Eduardo Gudin, Márcia e Paulo César Pinheiro definem o espetáculo "O importante é que nossa emoção sobreviva", esta noite no Tuca - rua Monte Alegre, 1054. Além das músicas da dupla Paulo César Pinheiro /Eduardo Gudin, o "show" mostrará uma seleção de chorinhos de Pixinguinha e as músicas que Baden Powell fez em parceria com Paulo César Pinheiro, entre elas "Lapinha".   

    O espetáculo está marcado para às 9 da noite e os ingressos custam Cr$ 20, 00. Até "E Lá Se Vão Meus Anéis", pouca gente conhecia Eduardo Gudin, um dos mais pródigos autores brasileiros e que já havia classificado várias composições em festivais de música brasileira da TV Record (1968 - "Choro de Amor Vivido" e 1969 - "Gostei de Ver") . Muito bem jovem ainda (ele tem 23 anos), Gudin lembra muito o estudante que foi (deixou o segundo ano de Engenharia) e conta como conheceu Paulo César Pinheiro, seu parceiro em quase setenta músicas:
"Eu ia sempre assistir ao "show" do Baden com a Márcia, no tempo da Leninha, lembra? Pensava que o Paulinho fosse já um senhor, tal a maturidade de suas letras. Aí então eu me surpreendi (ele tem a minha idade) e resolvi tocar pra ele algumas das minhas músicas. Nessa mesma noite começou nossa parceria e a gente tem dividido além da música, a nossa amizade".
"Acho que a nossa parceria deu certo porque a gente tem as condições básicas para isso: afinidade de gosto e um bom relacionamento humano. Por exemplo, eu moro em São Paulo e ele, no Rio, e já aconteceu de ele ir embora sem me avisar, sem se despedir. Pouca gente entenderia um comportamento desse e muito menos um tipo de parceria, onde as músicas são feitas quase sempre por telefone. O Paulinho instala o gravador junto do telefone e eu, aqui de São Paulo, cantarolo a melodia. Algum tempo depois, ele liga mandando a letra. Foi assim que foi feito "E Lá Se Vão Meus Anéis" e tantas outras . Só tem um contra: a conta do telefone fica cara 'à bessa'".
 

Quatro milhões bem devagar
    Na carreira de Eduardo Gudin, nada aconteceu estrondosamente. "Por isso, quando ganhei o primeiro lugar no festival, achei que não estavam fazendo mais que a obrigação. Hoje em dia, a Elizeth telefona pedindo música minha para seus novos discos e grava composições de seis anos atrás, do tempo em que ninguém acreditava. "Os meus anéis" deu para cada um de nós quatro milhões (velhos) de prêmio e, se para mim foi bom ganhar, para o Paulinho foi em dobro".


A História dos "Anéis"
    Um dia, Paulo César Pinheiro veio a São Paulo para receber sua parte (4 mil) do festival que ele vencera com Baden. Entrou no banco e a funcionária pagou tudo em notas de cinco. Isto às três horas da tarde. Até às sete, Gudin e Paulo César andaram por São Paulo batucando com o pacotão de dinheiro debaixo do braço. "Sabe, a gente já estava acostumado com ele". Depois, foram à casa de Márcia e ficaram bebendo até as quatro da manhã, quando o Paulo César resolveu sair. "Passando um dia, ele apareceu na minha casa com a mesma roupa e sem um tostão. Havia perdido o pacote de dinheiro. Ouviu o maior sermão do meu pai (quem perde quatro milhões ouve quieto qualquer sermão) e daí surgiu a idéia de fazer uma múscia que lembrasse o ditado: 'vão-se os anéis, ficam os dedos'".


De compositor a cantor
    "Eu preferia não cantar - diz Gudin. Pelo menos, não cantar profissionalmente, com a incumbência de mostrar minha música. Gosto de cantar como a gente faz em bar, sem responsabilidade, mas como são poucos os músicos comprometidos com uma determinada linha, a gente acaba vendo a nossa música mostrada de modo errado, por cantores que estão mais preocupados com a sua aparência do que com o recado a ser dado. Aí então a gente começa a cantar".
    Atualmente, os "Originais do Samba" têm gravado muita coisa da dupla Gudin - Paulo César Pinheiro. "Eles escolhem aquelas de comunicação mais imediata mas nem por isso eu vou passar a fazer exclusivamente este gênero, especialmente para eles".
Gudin, que estuda música desde menino - "eu nunca parei de estudar"- não tem preocupação de fazer música popular ( "até Bach é popular, basta que seja tocado"), mas de boa qualidade.
Agora, ele está, inclusive, fazendo um curso de orquestração e regência em Conservatório, com o Maestro Bernardo Federovski.