FOLHA DE SÃO PAULO - ILUSTRADA, 07 de setembro 1998

EDUARDO GUDIN TIRA O CHAPÉU PARA O SAMBA 
O compositor, arranjador e violonista paulistano lança disco com participações especiais de cantores e solistas
Carlos Bozzo Júnior - especial para a Folha

 
O disco "Notícias Dum Brasil II: Pra Tirar o Chapéu", o 11† da carreira de Eduardo Gudin, que está sendo lançado pela RGE, tem a participação de vários cantores e solistas. Em entrevista à Folha, Gudin contou como é difícil viver de samba em São Paulo.
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Folha
- O que caracteriza a legitimidade de um samba?
Eduardo Gudin - É difícil de explicar. Mas ele é legítimo quando apresenta uma linguagem, que defino como "banzo", que é um tipo de sentimento. As pessoas do ramo sabem quando um samba tem isso. Às vezes falam que é a síncope, mas como o blues, no samba existe um tipo de lamento característico.
Folha - Para fazer um samba bom é preciso ser pobre?
Gudin - Não, isso é um preconceito, uma bobagem. Na realidade, isso é uma linha que se adotou na MPB para se fazer uma crítica em cima da classe social. Não tem absolutamente nada a ver. Quem faz bem, faz bem. Pode ser pobre, rico ou classe média.
Folha - Quantos tipos de samba existem?
Gudin - Eu não sei todas as ramificações. Há vários tipos de samba. Djavan faz um samba bem próprio, que é maravilhoso. A bossa nova é um samba. Uma vez falei para o Tom Jobim que ele era um sambista, e ele adorou ouvir isso, porque ninguém gostava desse rótulo "bossa nova". Tem muito tipo de samba.
Folha - Qual é o tipo de samba que você faz?
Gudin - Faço um samba que vem de pessoas que me influenciaram diretamente, como Chico Buarque, Baden Powell, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, e, por trás de todo mundo, o Tom Jobim.
Folha - O que você escutava quando era criança?
Gudin - Sou praticamente um sambista de vitrola, porque descobri o samba pelo meu toca-discos. Eu não tive a vivência de encontros de morro ou escolas de samba.
Folha - O músico e sambista Donga (1889-1974), em um depoimento concedido ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em 68, afirma que a marcação do ritmo do samba estava sendo alterada. Quais foram as principais mudanças que o samba sofreu desde que você começou a compor?
Gudin - Muita gente mudou o samba. João Gilberto, João Bosco... O próprio Paulinho da Viola fez do samba tradicional uma coisa literária e diferente, o Baden trouxe um samba novo, que influenciou toda a música brasileira com inserções de elementos africanos. Então, o samba vem sofrendo transformações há muito tempo, algumas boas e outras que o descaracterizam por completo.
Folha - É fácil viver de samba em São Paulo?
Gudin - Não, é difícil. A cidade vê o samba distante. Se o cara vem do morro, será reverenciado certamente.