Diário do Grande ABC - DISCO/ CRÍTICA, 15 de fevereiro de 1987

EdUArdO GUdIn trIlhA O cAmInhO dO InstrUmEntAl
Ao longo de sua carreira, Eduardo Gudin ficou conhecido por lapidar sambas extremamente melódicos. Depois de sete discos compondo com parceiros famosos como Adoniran Barbosa, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Paulo Vanzolini e Fernando Brant, o compositor resolveu mostrar sua outra face. Balãozinho, recém-lançado pela gravadora continental, é um mergulho apaixonado na música instrumental. O LP funciona como uma grande sala de visitas. Importantes nomes da MPB revezam-se na execução e interpretação dos temas. Desde o seu mais novo parceiro Arrigo Barnabé ao bruxo Hermeto Paschoal, passando pelo guitarrista Heraldo do Monte e mais Vânia Bastos, Eliete Negreiros e o grupo Canto a Canto.
Gudin estreou profissionalmente em 1966, e pertence à geração posterior a Edu Lobo, Chico Buarque de Hollanda, Baden Powell, e Geraldo Vandré. A sua primeira apresentação ocorreu no programa O Fino da Bossa, comandado por Elis Regina na época de ouro dos programas musicais da TV Record. O sucesso veio com E lá se vão meus anéis, em parceria com Paulo César Pinheiro, defendida pelos Originais do Samba no Festival Universitário da TV Tupi no ano de 1971.
A partir daí, sua carreira começou a tomar impulso. Partiu para o primeiro LP, a convite da Odeon. Depois disso, vários intérpretes gravaram suas músicas: Elza Soares, MPB 4, Jair Rodrigues, Márcia, Clara Nunes, e Beth Carvalho, entre outros. E vieram outros sucessos, como Maior é Deus, Veneno, Velho Ateu e Mente.
Das oito faixas deste disco, apenas três são cantadas, sendo que destas duas ainda guardam o traço característico que norteou o trabalho de Gudin nos últimos 20 anos. Férias, um samba em parceria com J. Petrolino, está embalado, com a voz afinadíssima de Vânia Bastos. E Verde, canção finalista do Festival dos Festivais da TV Globo, defendida por Leila Pinheiro, recebe aqui o tratamento do grupo vocal Canto a Canto. Já Balãozinho, que abre o Lp, se insere nos novos rumos do compositor. Interpretada por Eliete Negreiros, com a voz de Gudin ao fundo, de contraponto, é uma autentica bossa-nova, com a participação de um time de feras ligados à música instrumental com Arismar do Espírito Santo, Edson Alves e Michel Freindeson, além de um naipe de 12 cordas.
Da parceria com Arrigo Barnabé, foram incluídas as músicas Bem-Bom e Cidade Oculta. A primeira foi gravada por Gal Costa e transformou-se na faixa-título de seu disco. O dedo de Arrigo fica evidente no toque do piano e na construção melódica do tema. A guitarra precisa de Heraldo do Monte faz as vezes de vocal. Cidade Oculta, tema do filme homônimo de Chico Botelho, vem com um arranjo onde predominam as cordas e o oboé. O clima nostálgico é assegurado pela intervenção do sax-alto de Roberto Sion.
O melhor momento do disco é a faixa Choros, na verdade uma suíte de três composições de Gudin: Te Rever, Proezas do Coração e Águas Passadas. Hermeto Paschoal, a quem o compositor dedica este seu último trabalho, é o responsável pelo arranjo e interpretação dos temas, acompanhado por seu grupo e por uma orquestra com diferentes cordas e sopros. Ele mistura os instrumentos tradicionais do choro, como a flauta e o cavaquinho, aos incomuns (para o gênero) fagote, trompas e cordas. Outro destaque é a canção Arrebentação, uma parceria com Paulo César Pinheiro, cadenciado pelo violão, com ênfase para o oboé de João Cuca e o sax-tenor de Roberto Sion. Um trabalho sensível, concebido por alguém que realmente tem paixão pela música.