JORNAL DA TARDE, 02 de outubro de 1978

 

ELE ESPEROU ASSENTAR A POEIRA LEVANTADA PELO SAMBÃO.
E LANÇOU NOVO DISCO
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Foram quase três anos depois da gravação do último disco individual. Três anos em que teve uma concorrência dura, tempo em que qualquer samba era sambão - aquele de refrão simples, reconhecível depois da primeira passagem da letra, o que carregava todo mundo para o centro da pista. Maior é Deus, um partido alto, A Velhice da Porta Bandeira, Veneno e Lá Se Vão Meus Anéis, sambas bem populares, eram referenciais para as gravadoras que só esperavam dele composições deste gênero.
Agora Eduardo Gudin volta com o disco "Coração Marginal". Cantando samba, samba-canção, tocando valsa. Afinal a poeira levantada pelo sambão, começa a assentar e ele já pode mostrar o que quer, sem o receio de ser "mais um dentro da moda".
Pode parecer excessivamente escrupuloso, mas é assim. Este receio existe quando pensa em compor com nomes famosos como Paulo Vanzolini, Nelson Cavaquinho, seus bons amigos. Em muitas noitadas juntos, depois de algumas cervejas, acabam acontecendo aquelas parcerias inusitadas. Mas Gudin esperou o dia sóbrio, até Vanzolini, por exemplo, chegar e dizer "fiz esta letra para você musicar". Mente, que os dois fizeram juntos, seguiu este caminho.
Gudin se diz um carioca de vitrola, quer dizer, o que passou boa parte da vida ouvindo Elton Medeiros, Baden Powell, Tom Jobim, Paulinho da Viola. (Tom Jobim para ele é "o rei da forma", o maior compositor do mundo e Chico Buarque, o que faz uma união de letra e música perfeita, que o toca demais). É claro que daí tirou sua maneira de compor, algo tão marcadamente do Rio de Janeiro que, para musicar as letras de Vanzolini, trabalhou como se fosse o próprio Vanzolini, tentando fazer samba "com jeitão de São Paulo".
Para fazer o Coração Marginal, Gudin teve um tempo indeterminado pela gravadora Continental. "Era acabar quando terminasse". E gastou oito meses, gravando metade em São Paulo e outra no Rio. Aí a questão fica meio melindrosa, porque toda a parte de ritmo foi feita lá, por sua própria opção.
"Tive total liberdade na escolha dos músicos, nas participações especiais (no caso, MPB4, Marília Medalha e Adauto Santos). E como lá estão dez ritmistas como não se encontram em qualquer outro lugar, fazendo exatamente o que eu prtendia..."
Quando ouve o disco Gudin vai apontando a eficiência dos tamborins de Luna, Eliseu e Marçal, pandeiro e ganzá de Gordinho, Jorginho e Genaro, do agogô e tumbadora de Jorge Garcia e Geraldo Bongô. E do violão de sete cordas de Dino, do cavaquinho de Neco. (...)
Na verdade, cantar acaba sendo uma própria imposição do mercado, uma maneira de fazer o disco acontecer. (...) "a saída é o compositor mostrá-la de qualquer maneira", explica (embora sempre acabe as gravações que fazem de suas músicas melhores que as suas. Mente, com Clara Nunes, considera a mais bonita que alguém já fez de um samba seu).
Ainda não há planos para o lançamento do disco em circuitos como os do ano passado com Roberto Riberti e Márcia, do gênero universitário e Seis e Meia. Até que isto se resolva, ele vai organizando o festival universitário, que a TV Cultura programa para abril de 79, e pensando em novas músicas com Hermínio Bello de Carvalho, Vanzolini, Roberto Riberti e mesmo Paulo César Pinheiro, seu parceiro mais frequente durante os tempos de "O Importante é que a Nossa Emoção Sobreviva"(...). Pensando em novas músicas, ou mesmo sonhando, como aconteceu com o Velho Ateu, a primeira faixa do lado A, cujo refrão acordou cantando: "Se eu fosse Deus, a vida bem que melhorava/ Se eu fosse Deus, daria aos que não tem nada".