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O
lançamento do disco "Eduardo Gudin e Vânia
Bastos", pela Eldorado, sela uma identificação
de longa data. Carreiras bem próximas, ambos viviam se esbarrando
pelos palcos e estúdios desde o final dos anos 70, quando
Vânia interpretou com Arrigo Barnabé a vitoriosa Diversões
Eletrônicas, no Festival Universitário da TV Cultura,
do qual Gudin foi produtor. Um e outro encontro aqui e ali, em 86
ele a convidou para gravar seu primeiro LP na Copacabana, dentro
do projeto "Bom Tempo", do qual foi criador.
Apadrinhados pelo amigo comum Arrigo, Gudin e Vânia decidiram
concretizar a idéia de formar uma dupla, no ano seguinte,
com show no Sesc Pompéia. Tinha vontade de dividir um show
com ela, que sabe cantar sem descaracterizar a música e dando
uma interpretação bem pessoal. Sucesso de público
e crítica, o show repetiu a façanha em 88, viajou
por várias cidades brasileiras e aterrissou no reduto do
jazz e da MPB chique, o 150 Night Club.
O convite para levar o resultado do palco para o disco deixou a
dupla maluca. Uma formação que mistura cello, sax
e flauta não é usada normalmente em estúdio.
"Tivemos de cuidar muito dos arranjos, pois a idéia
era manter a delicadeza dos sons ao vivo no LP", conta Gudin.
Com jeito da recital de orquestra de câmara, show e disco
ressaltam o lado menos explorados dos dois. Conhecido como compositor
de sambas, Gudin é arranjador e mostra sua faceta erudita.
Vânia, que antes encarnava os vários personagens loucos
de Arrigo, com explosões vocais e gestos teatrais, passou
a dirigir as atenções mais para a voz. Concorda que
este disco define novos rumos: "Estou cantando coisas que nunca
cantei. Além do mais, as pessoas me conhecem mais pelo meu
trabalho com a banda do Arrigo".
"Apesar do agudo ser característico da minha voz, canto
músicas não tão dentro desse tom". Pelo
menos do estigma do segundo disco, Vânia passou ao largo.
O material de participação especial nos discos de
Hermelino Neder (Como Essa Mulher), Arrigo Barnabé
(Tubarões Voadores e Cidade Oculta),
Eduardo Gudin (Balãozinho) e Joelho de Porco (Saqueando
a Cidade), de 83 a 86, preenheria com sobra um álbum
bem temperado. Gudin não lhe economiza elogios: "É
difícil alguém suingar na hora certa, e ela sabe exatamente
a divisão do samba. Canta qualquer tipo de música".
Cantar samba é aparentemente mais simples, mas pouquíssima
gente canta samba direito. Vânia diz que tem o maior prazer
em cantá-los.
Praticamente a metade do disco resgata o que se viu nos shows: as
regravações de Lenda, Cidade Oculta,
Balãozinho e Bem Bom, canções
que frisam as experiências atonais de Gudin. Com tantas pós-bossas
e sambas, entre as antigas e as novas, a música Paulista,
que a gravadora escolheu para trabalhar, é um bolero. Conta
a história de um amor que termina com a derrubada dos antigos
casarões da avenida Paulista: "Se a avenida exilou seus
casarões/ Quem reconstruiria nossas ilusões".
Programada para rolar num desses casarões da Paulista, a
festa de lançamento do disco foi adiada por falta de condições
do prédio. Amanhã, só para convidados, Gudin
e Vânia o lançam oficialmente no MIS, onde é
provável que dêem algumas canjas a seletos felizardos.
Nos planos, uma série de shows para promover o álbum.
Depois disto, Gudin vai dar um tempo com discos, pois está
louco para estudar. Vânia já pensa em seu segundo álbum
solo, pela Eldorado. Mas continuam ligados. Talvez desta vez os
shows da vida os apresentem
como revelação.
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