Folha de São Paulo, 25 de agosto de 2001
Mestre de Jobim é relembrado em shows
Artistas como Céline Imbert, Ná Ozzetti e Jane Duboc cantam sobre arranjos originais do maestro Leo Peracchi
Pedro Alexandre Sanches

 

Uma homenagem nas noites de hoje e amanhã, em São Paulo, quebra o progresso da perda de memória sobre o maestro paulistano Leo Peracchi (1911-93).
O espetáculo "O Mestre Leo Peracchi e a Jazz Sinfônica", idealizado pelo compositor e arranjador Eduardo Gudin, 50, reúne a Orquestra Jazz Sinfônica e cantoras paulistas em torno de canções de Tom Jobim (1927-94), aluno e discípulo ferrenho de Peracchi em seus primeiros anos profissionais. Renderá um disco, a ser lançado pelo selo Dabliú.
Tido como um dos quatro pilares entre os arranjadores modernos brasileiros - os outros são Guerra-Peixe, Radamés Gnattali e Lyrio Panicali_, Peracchi teve papel de distinção no momento de tradição da música popular para novo ambiente, a bossa nova.
Isso aconteceu quando Peracchi arranjou um disco em que sua mulher, a cantora de formação erudita Lenita Bruno, se debruçava por canções compostas pelo então ascendente Tom Jobim. "Por Toda a Minha Vida" (59) é um dos elos perdidos entre a canção antiga e a bossa nova, e é em torno dele que Eduardo Gudin organizou a homenagem de agora. "Segundo muitas pessoas, aquele disco mudou a maneira de escrever para orquestra no Brasil. Ele perde aquela coisa rococó da época, é completamente moderno até hoje . Para Dori Caymmi, por exemplo, Leo Peracchi foi o maior dos arranjadores brasileiros. A falta de conhecimento sobre ele é desproporcional à sua importância", descreve Gudin.
O maestro gaúcho Ciro Pereira, 72, que acompanha o projeto de Gudin só como entusiasta, depõe:"Era extraordinário, foi um dos pais dos arranjadores modernos. Estar esquecido é uma injustiça".
Aluno de Peracchi em 75, Gudin chamou seis cantoras atuantes em São Paulo (leia quadro ao lado), mais uma filha de Leo e Lenita, a hoje corista de Roberto Carlos Myriam Peracchi, para reinterpretar o disco na íntegra, com os arranjos originais do maestro. "Quando soube de Myriam, a procurei e perguntei se tinha alguma coisa sobre seu pai. Ela só tinha os arranjos originais de 'Por Toda a Minha Vida' e me deu. Fiquei os estudando e achei que algo devia acontecer com eles, pela memória de Leo Peracchi", diz.
Myriam, que no show deixará a condição de backing vocal e cantará "Eu Sei que Vou te Amar", fala do pai: "Ele foi precursor de tanta coisa, pena que ficou tanto tempo afastado. Foi embora, morou nos Estados Unidos, na Rússia, na Iugoslávia. Voltou em 70, mas aí já nãoconseguia fazer muita coisa, porque o campo para orquestração ficou muito restrito. Não havia mais chance para ele".
Sobre reinterpretar em seu formato original a música que o pai arranjou e a mãe cantou há 42 anos, Myriam brinca: "Eu nem sei. Vou ter que tomar uma caixa de Vallium. Acho que não vou segurar as lágrimas".


O MESTRE LEO PERACCHI E A JAZZ SINFÔNICA - Orquestrações
do maestro para canções de Tom Jobim, com a Orquestra
Jazz Sinfônica e convidadas. Onde: Sesc Pompéia
(Rua Clélia, 93, tel. 0/ xx/11/3871-7700). Quando: hoje, às
21h, e amanhã, às 18h. Quanto: R$ 20.