REVISTA VEJA, 26 de julho de 1989

O  RíTMO E A VOZ
Gudin e Vânia Bastos unem forças num ótimo disco

Okky de Souza

 

O compositor paulista Eduardo Gudin, de 38 anos, já foi gravado por Gal costa e Beth Carvalho. Sua lista de parceiros inclui nomes tão diversos como Fernando Brant, Caetano Veloso e Arrigo Barnabé. Mesmo assim, Gudin é um nome pouco conhecido do público, e o motivo é simples. Ele pertence àquela família de músicos que tem prestígio entre os próprios artistas e críticos, mas não consegue emplacar nas paradas de sucessos. Gudin não gravita no rock, no brega romântico ou na MPB oficial - gêneros que dominam as ondas do rádio. Ele é do samba, mas daquele tipo de samba de melodias inspiradas e lirismo desenfreado, às vezes quase sussurrado, que tem o seu mestre indisputado em Paulinho da Viola -por sinal,um dos parceiros de Gudin. Navegando ao largo da corrida pelo sucesso e investindo nas partituras,Gudin construiu.nos oito LPs que lançou e nos repertórios alheios, uma obra de qualidade.
Uma excelente amostra do seu trabalho pode ser ouvida em seu novo disco, Eduardo Gudin & Vânia Bastos, em que divide as interpretações com uma das melhores cantoras reveladas na música nos últimos anos. Dona de uma voz extensa, de timbre macio, e impecável do ponto de vista da afinação e técnica, Vânia, de 33 anos surgida em companhia do músico Arrigo Barnabé, no início da década, injeta vigor no disco ao acompanhar a voz pequena e tímida do compositor. "Vânia é um instrumento, ela sabe valorizar o que tem de melhor sem 'roubar' para ela a autoria", atesta Gudin. A dupla já apresentara um show de sucesso, em São Paulo, entre 1987 e 1988.
Dr. Silvana – O LP é um primor de bom gosto. Há sambas belíssimos, como mensagem. Outro exemplo é Paulista, um samba-canção que pende para o bolero, mas não do tipo brega como os que recheiam os LPs de Alcione e Roberto Carlos- é um bolero inspirado como os de Chico Buarque. Há também suaves experiências com as dissonâncias e o atonalismo, em Lenda e Cidade Oculta , que empregam tais recursos eruditos sem incomodar o ouvinte de música popular.
Eduardo Gudin iniciou carreira nos festivais de música da televisão que pontificavam nos anos 60. Antes disso, com apenas 14 anos, chegou a acompanhar Elis Regina ao violão no programa O Fino da Bossa , apresentado como garoto-prodígio. Fez carreira principalmente como compositor – seus LPs, a maioria independentes ou lançados por gravadoras pequenas, jamais foram campeões de vendas. Por isso mesmo, hoje Gudin divide-se entre o samba e outras atividades. Ele é proprietário de um bar com música ao vivo em São Paulo, Boca da Noite, onde se limita a cuidar do cardápio artístico e deixa a contabilidade para um sócio. Além disso, há um ano, dedica-se a fazer jingles e vinhetas sonoras, sempre faturando 20% de contratos publicitários que variam entre 20000 e 100000 cruzados novos. “Na hora de fazer jingles , me transformo no Dr. Silvana, aquele dos quadrinhos, e faço até rock”, diverte-se. Quando Dr. Silvana se transforma no compositor de verdade, quem ganha é a música brasileira.