O violonista Gudin, em seu oitavo álbum
 

(Jornal da Tarde, 17 de janeiro de 1987)

Aos 13 anos de idade, ele viu Paulinho Nogueira tocando violão e ficou louco de vontade de fazer a mesma coisa. E aprendeu direitinho. De lá para cá, Eduardo Gudin tem tocado, arranjado e composto sambas como “Choro do amor Vivido”, “Velho Ateu”, “Mordaça”, e “Mente”, geralmente em parceria com figuras do “cult” sambístico como Paulo César Pinheiro, Paulo Vanzolini e Roberto Riberti, além de Hermeto Paschoal e de pasmem, Arrigo Barnabé.
Sua carreira começou mesmo em 66, quando se apresentou no último programa da série “O Fino da Bossa” comandada por Elis Regina tocando “Morena Boca de Ouro”. Uma apresentação que quase não aconteceu, pois o Juizado de menores queria impedir Eduardo, então com 16 anos, de subir ao palco. Mas o pai do menino interveio, e o resultado é que Balãozinho, lançado agora pela Continental, já é o oitavo disco de Gudin.
Entre parcerias e intérpretes convidados, Balãozinho tem a participação de Eliete Negreiros (sua colega de escola), Vânia Bastos, Roberto Sion, Heraldo do Monte, grupo Canto a Canto, Arrigo Barnabé e Hermeto Paschoal. Hermeto é caso antigo de Gudin, foi ele quem fez o arranjo de “Choro do Amor Vivido”, do primeiro disco de Eduardo (intitulado simplesmente Eduardo Gudin e ganhador do festival da Record de 68. Neste reencontro dos dois, Hermeto acabou ficando com o arranjo de uma suíte de três choros (“Choros 1,2 e 3”) que ele próprio interpreta ao piano.
O que distingue Balãozinho dos outros discos do músico é que este é basicamente em álbum instrumental: das oito faixas, apenas três são cantadas e desta vez não apenas por Gudin. Ele próprio considera que seu forte nunca foi sua performance vocal, e para seu trabalho mais recente decidiu pedir a contribuição de Eliete Negreiros (na faixa “Balãozinho”), Vânia Bastos (em “Férias”, de Gudin e J. Pretolino) e do Grupo Canto a Canto (em “Verde”, de Gudin e Costa Netto, apresentada no “Festival dos Festivais”, em 85, na voz de Leila Pinheiro).
Eduardo diz estar muito satisfeito com essa possibilidade de passar a valorizar mais este seu lado de arranjador, de criador de estruturas harmônicas. Na sua opinião, o samba não se define por um ritmo ou uma seqüência harmônica determinados, mas sim por um sentimento, isto não o impediu, no entanto, de procurar trabalhar com estruturas mais sofisticadas - embora não complicadas, ele faz questão de frisar - que se prestem a ser as mais elaboradas pelo arranjador.
Esta sofisticação está presente, por exemplo, no seu trabalho com Arrigo Barnabé na faixa “Cidade Oculta” ( tema do filme de mesmo nome, do cineasta Chico Botelho ).
A parceria com Arrigo começou quando criador de “Tubarões Voadores” foi para a Alemanha e deixou na mão de Gudin uma partitura apenas com os oitos primeiros acordes de “Lenda”. Quando Arrigo voltou, a música já estava pronta. Daí veio “Bem-Bom”e, por fim, a participação neste disco.
Este é o terceiro LP de Gudin pela Continental, (os outros foram Coração Marginal, de 78, e Ensaio do Dia, de 84), ele foi até mesmo dono de uma gravadora independente, a Realejo Produções Artísticas, Discos e Fitas Ltda, mas essa experiência só deixou frustrações, segundo ele, devido ás dificuldades de distribuição e de colocação dos discos nas rádios. Eduardo afirma que seu relacionamento com a Continental é muito bom e que jamais sofreu qualquer imposição por parte da gravadora, ela nem mesmo chegou a conhecer o projeto de Balãozinho até que ele estivesse totalmente realizado.