O GLOBO, 30/03/2001

Os muitos sons do maestro Eduardo Gudin
Disco, shows e outros projetos do compositor-letrista revelam um terceiro e inspirado artista: o orquestrador

João Máximo

Eduardo Gudin chega aos 50 anos de vida, 33 de música, realizando um sonho fora do alcance da maioria dos compositores brasileiros: o de juntar num mesmo projeto - CD, shows, especial de TV, exposição - os três lados de seu talento de compositor, letrista e orquestrador. Os três realmente estão por inteiro no CD "Luzes da mesma luz" (Dabliú Discos) e seus derivados.
Gudin só não é o faz-tudo da história porque as 13 canções que se seguem à abertura orquestral são cantadas por Fátima Guedes. São canções de Gudin, sozinho ou em parceria com Paulo César Pinheiro, Paulinho da Viola, Sérgio Natureza, Costa Netto, Caetano Veloso, Roberto Riberti, Arrigo Barnabé, Aluízio Falcão.
      - São parcerias que atravessam o tempo - diz Gudin ao lembrar que o samba que dá título ao CD, letra de Sérgio Natureza, é de 1985. As coisas mais novas são minhas, música e letra, já que a meu lado de letrista só me dediquei de uns tempos para cá.

O aluno de Peracchi aciona sua batuta

Embora a qualidade das canções se imponha, algumas de sucesso, uma ou outra ganhadora de festival, é o lado do orquestrador que talvez dê a "Luzes da mesma luz" um caráter tão especial. Gudin brilha como arquiteto e construtor dos sons que uma grande orquestra produz por trás da voz delicada de Fátima.
      - Carreguei esse projeto debaixo do braço por mais de dois anos - conta. Sempre quis unir os três lados de minha personalidade musical num só trabalho. Como Jobim, Ary Barroso, Vadico e outros, na música brasileira tradicional, capazes não só de fazer letra para suas melodias, mas também de orquestrá-las.
Após infrutífera busca de patrocínio, Gudin foi bater às portas do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. O diretor deste, Danilo Santos de Miranda, entusiasmou-se com a idéia e ampliou-a até os limites dos shows (que já aconteceram em São Paulo e se preparam para viajar por outros Sescs do Brasil). Daí Gudin dedicar o CD a Danilo.
      - Aprovado o projeto, me dediquei primeiro à concepção orquestral - conta Gudin. - Na verdade, escolhi quatro composições minhas para estruturar as orquestrações a partir delas. "Mordaça", digamos, é um samba mais pesado. "Verde" mistura samba e bossa nova, o que é mais ou menos a minha cara. "Paulista" é um bolero. E "Velho ateu" está dentro da herança de Nelson Cavaquinho.
Os quatro temas abriram caminho para Gudin escolher os outros nove, inclusive os inéditos. E vesti-los com a habilidade de um orquestrador talvez menos conhecido do que mereça. Aluno do falecido Leo Peracchi - um dos melhores do Brasil, professor de Antônio Carlos Jobim e criador de idéias que acabariam aproveitadas por Claus Ogerman nos discos de Tom - Gudin recorda o mestre com saudade. Foram muito ligados de 1974 a 76. Contudo, não seria Peracchi sua maior influência como orquestrador.
      - Gaya nas cordas e Carlos Monteiro de Souza nos metais é que foram fundamentais em minha formação - revela. - Monteiro de Souza não conheci, mas com Gaya cheguei a trabalhar. No arranjo que ele fez para "Canto das três raças", no disco de Clara Nunes, o violão é meu.
A abertura orquestral foi escrita especialmente para o projeto, por sugestão de Danilo. E quem seria o intérprete de todo o CD? Desde o começo Gudin pensou em voz feminina, Vânia Bastos, Leila Pinheiro e Mônica Salmaso sendo as mais cotadas.
      - Até que um dia ouvi, pela Rádio USP, Fátima Guedes cantando um samba dela. Foi uma revelação. É claro que eu já a conhecia, excelente cantora e compositora. Mas, ao ouvi-la naquela samba, pensei no que seria usar sua voz, com aquele estilo inconfundível, aquela levada tão carioca, que só as cantoras cariocas têm, concluí que estava ali a intérprete ideal para esse trabalhei. Convidei-a e ela aceitou na hora.
Gudin, o orquestrador mais que o compositor, ressalta a categoria de Fátima. Durante a gravação - base no estúdio do Sesc, cordas no auditório - foi perfeita.
      - Fátima Guedes desafinar, emitir uma nota errada, é simplesmente impossível.