Eduardo
Gudin chega aos 50 anos de vida, 33 de música, realizando um
sonho fora do alcance da maioria dos compositores brasileiros: o de
juntar num mesmo projeto - CD, shows, especial de TV, exposição
- os três lados de seu talento de compositor, letrista e orquestrador.
Os três realmente estão por inteiro no CD "Luzes da
mesma luz" (Dabliú Discos) e seus derivados.
Gudin só não é o faz-tudo da história porque
as 13 canções que se seguem à abertura orquestral
são cantadas por Fátima Guedes. São canções
de Gudin, sozinho ou em parceria com Paulo César Pinheiro, Paulinho
da Viola, Sérgio Natureza, Costa Netto, Caetano Veloso, Roberto
Riberti, Arrigo Barnabé, Aluízio Falcão.
- São parcerias que atravessam o tempo - diz
Gudin ao lembrar que o samba que dá título ao CD, letra
de Sérgio Natureza, é de 1985. As coisas mais novas
são minhas, música e letra, já que a meu lado de
letrista só me dediquei de uns tempos para cá.
O
aluno de Peracchi aciona sua batuta
Embora a qualidade das canções se imponha, algumas de
sucesso, uma ou outra ganhadora de festival, é o lado do orquestrador
que talvez dê a "Luzes da mesma luz" um caráter
tão especial. Gudin brilha como arquiteto e construtor dos sons
que uma grande orquestra produz por trás da voz delicada de Fátima.
- Carreguei esse projeto debaixo do braço por mais de dois
anos - conta. Sempre quis unir os três lados de minha
personalidade musical num só trabalho. Como Jobim, Ary
Barroso, Vadico e outros, na música brasileira tradicional, capazes
não só de fazer letra para suas melodias, mas também
de orquestrá-las.
Após infrutífera busca de patrocínio, Gudin foi
bater às portas do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. O
diretor deste, Danilo Santos de Miranda, entusiasmou-se com a idéia
e ampliou-a até os limites dos shows (que já aconteceram
em São Paulo e se preparam para viajar por outros Sescs do Brasil).
Daí Gudin dedicar o CD a Danilo.
- Aprovado o projeto, me dediquei primeiro à concepção
orquestral - conta Gudin. - Na verdade, escolhi quatro composições
minhas para estruturar as orquestrações a partir delas.
"Mordaça", digamos, é um samba mais pesado.
"Verde" mistura samba e bossa nova, o que é mais ou
menos a minha cara. "Paulista" é um bolero. E "Velho
ateu" está dentro da herança de Nelson Cavaquinho.
Os quatro temas abriram caminho para Gudin escolher os outros nove,
inclusive os inéditos. E vesti-los com a habilidade de um orquestrador
talvez menos conhecido do que mereça. Aluno do falecido Leo Peracchi
- um dos melhores do Brasil, professor de Antônio Carlos Jobim
e criador de idéias que acabariam aproveitadas por Claus Ogerman
nos discos de Tom - Gudin recorda o mestre com saudade. Foram muito
ligados de 1974 a 76. Contudo, não seria Peracchi sua maior influência
como orquestrador.
- Gaya nas cordas e Carlos Monteiro de Souza nos metais é
que foram fundamentais em minha formação - revela.
- Monteiro de Souza não conheci, mas com Gaya cheguei a trabalhar.
No arranjo que ele fez para "Canto das três raças",
no disco de Clara Nunes, o violão é meu.
A abertura orquestral foi escrita especialmente para o projeto, por
sugestão de Danilo. E quem seria o intérprete de todo
o CD? Desde o começo Gudin pensou em voz feminina, Vânia
Bastos, Leila Pinheiro e Mônica Salmaso sendo as mais cotadas.
- Até que um dia ouvi, pela Rádio USP, Fátima
Guedes cantando um samba dela. Foi uma revelação. É
claro que eu já a conhecia, excelente cantora e compositora.
Mas, ao ouvi-la naquela samba, pensei no que seria usar sua voz, com
aquele estilo inconfundível, aquela levada tão carioca,
que só as cantoras cariocas têm, concluí que estava
ali a intérprete ideal para esse trabalhei. Convidei-a e ela
aceitou na hora.
Gudin, o orquestrador mais que o compositor, ressalta a categoria de
Fátima. Durante a gravação - base no estúdio
do Sesc, cordas no auditório - foi perfeita.
- Fátima Guedes desafinar, emitir uma nota errada, é
simplesmente impossível.