Folha de São Paulo - Ilustrada, 16/08/89
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Vânia
samba
com
Gudin |
Luiz
Tatit
Especial para a FOLHA |
A
dupla Eduardo Gudin e Vânia Bastos trabalha com densidade e profundidade
depurando cada gesto sonoro em função da concepção
musical das obras.
Gudin e Vânia reservam o lado A para a lapidação do samba. No lado B, incursionam por outros gêneros como bolero, modinha e valsa, reencontrando o samba, nas últimas faixas, já um tanto quanto transformado pelas experiências “passado-futuro” de “Lenda” e “Cidade Oculta”. É que, para Gudin, tudo começa e termina com samba. O samba tem uma espécie de acrobacia básica que se resume em falar das coisas do mundo ou do espírito sem perder o equilíbrio do ritmo. É como se o artista viajasse pisando em corda bamba (a corda do samba). Se perder o equilíbrio, perde a viajem. Não é por outra razão que, em geral, as letras de samba exaltam o próprio gênero, falando de música, som, batida, dança, violão, canto. Tudo para manter a linha de concentração nos meandros dos temas. Essa tendência, digamos centrípeta, que pode reduzir a composição a um elenco de melodias com sentido equivalente (caso de alguns “sambões” ou pagodes de hoje), pode também determinar a produção de exímios sambistas como Noel, Chico ou Paulinho, que revertem esses limites em proveito de cada obra. Nesse caso, impera a audácia, quase provocativa, de um desvio constante das previsibilidades melódicas, como se os autores estivessem brincando no limiar da quadratura rítmica. Eduardo Gudin faz parte dessa linha de sambistas que aproveitam as balizas do gênero para investir na tensão melódica e criar novas maneiras de dizer o texto. Seu encontro com Vânia Bastos me parece providencial. É o encontro da concepção musical de base com a perícia de execução vocal. A cantora se encarrega de extrair aqueles conteúdos virtuais que só vêm à tona por ocasião das interpretações definitivas. Sua devoção às composições é comovente. Vânia vem ao encontro de Gudin nas canções “Mensagem”, “Conjunto de Baile”, “Estrela”, “Confesso” e “Verde”. Gudin vai ao encontro das experiências típicas de Vânia nas canções “Lenda” e “Cidade Oculta”. Ambos acabam promovendo outros encontros surpreendentemente consonantes entre Elton Medeiros, Costa Netto ou Paulo César Pinheiro de um lado, e Arrigo barnabé, Hermelino Neder ou Carlos Rennó de outro. Vitória da canção brasileira.
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