05/10/2006
Hugo Sukman, especial para o Jornal Musical
É comovente a
desproporção entre a importância, a qualidade, a consistência da obra de
Eduardo Gudin (www.eduardogudin.com.br) e a sua popularidade, mesmo entre
supostos conhecedores da musica brasileira. Timidez; o fato de se tratar de um
compositor “carioca” nascido paulista, talvez jovem demais para ter pego o
auge da popularidade da geração de ouro da MPB (da qual ele faz parte,
estética e cronologicamente); um trabalho não rotulável entre o samba
tradicional e a vanguarda, a roda e o concerto, a alegria e a melancolia: são
explicações mas que não justificam a inexistência no Brasil de um culto a
Gudin e à sua musica, como se cultua um Guinga, um Dori (para citar outros
dois compositores populares sofisticados igualmente não popularizados). E
mesmo um Paulinho da Viola, parceiro de Gudin em música e na arte de fazer um
samba tão “autêntico” quanto revolucionário e não tradicional mas que teve a
sorte de pegar carona na popularidade da MPB do final dos anos 1960.
Um jeito de fazer samba (Dabliú) é, como aliás TODOS os outros 13 discos de Gudin, um motivo para se começar tal culto, um panorama cuidadoso e rigoroso de - como escancara o título - um jeito muito particular de se fazer música, samba sobretudo. Trata-se do terceiro CD de uma série que o compositor começou em 1995, na qual assina os discos como Eduardo Gudin & Noticias dum Brasil.
Mais do que um grupo (cujos componentes, aliás, podem mudar a cada trabalho), Notícias dum Brasil é o conceito-jeito de Gudin para o samba: calcado no seu violão virtuose, herdeiro evidente de Baden Powell burilado em técnicas eruditas; em percussão de samba delicada mas consistente; e, sobretudo, em arranjos vocais executados por vozes jovens e perfeitas que Gudin não cansa de descobrir na noite e nos estúdios paulistanos.
Não custa lembrar que no primeiro Notícias dum Brasil (1995), Gudin revelou, entre outras, simplesmente as vozes de Mônica Salmaso e Renato Braz, os dois mais cultuados jovens cantores da atualidade; e no segundo, Pra tirar o chapéu (1998), as de Fabiana Cozza, hoje querida nas rodas de samba de São Paulo e Rio, e Luciana Alves, cristalina vocalista da banda de Chico Pinheiro. Agora, nosso especialista em vozes (sobretudo femininas) revela a igualmente cristalina Selma Boragian e a não menos interessante Ilana Volcov, de voz mais quente, aveludada à Mônica Salmaso. Guardemos essas vozes que, em Um jeito de fazer samba, solam, duetam e apóiam a voz do compositor.
Posto o formato vozes-violão-percussão cada vez mais rigoroso e conciso (nos outros discos ainda havia orquestra, piano, outros elementos), há o proverbial desfilar de belos sambas de Gudin, com aquela alegria triste (ou tristeza alegre) que os caracterizam, além do caráter reflexivo das letras próprias ou de seus parceiros quando escrevem para seus sambas.
A
obra-prima do disco é, mais uma vez, um samba de Gudin e Paulinho da Viola, o
segundo que fizeram juntos, “Sempre se pode sonhar” (como o do CD de 1998 era
“Ainda mais”, clássico instantâneo também gravado por Leila Pinheiro e Fátima
Guedes). A letra de Paulinho parece interpretar, psicografar o espírito mesmo
do sambas de Gudin. Primeiro, o situa na tradição paulista: “Saí/ Antes do dia
amanhecer/ Deixei Adoniran me consolar”. Depois, define de forma mais
conceitual: “Meu samba fala em adeus, sim/ Mas também pode ocultar/ Um sonho
que se perdeu e/ Sempre se pode sonhar/ Guarda uma estrela que um dia pousou/
Em minha vida e já não brilha mais/ Em minhas mãos vazias”. Exceção no disco,
esta faixa é cantada por Paulinho da Viola e Vânia Bastos, mulher de Gudin, e
voz igualmente privilegiada, ambos cantando de forma comovente, emocionada.
Curioso como Paulinho (na foto com Gudin) usa um vocabulário e imagens tão
recorrentes na obra de Gudin, como a “estrela” (tema de um velho samba em
parceria com Elton Medeiros e Roberto Riberti) ou as “mãos vazias”, também
tema de um samba de Gudin e Paulo César Pinheiro, título do seu segundo disco,
de 1975.
No samba-título, mais um de sua vasta parceria com o letrista Costa Netto (do maior sucesso de sua carreira, o sofisticado samba bossa nova “Verde”), Gudin volta a cantar suas imagens recorrentes: “Quando anoiteceu/ A estrela me despertou/ Buscou você” ou “Esse jeito meu/ De no samba sempre escancarar/ Meu coração/ Acende a paixão/ Mas me faz retornar com as mãos vazias/ Das madrugadas que andei”. A letra de “Um jeito de fazer samba” começa, inclusive, arriscando uma definição da relação de Gudin com o samba: “Linhas tortas da palma da mão/ Dão trilha certa no fim/ Torto meu samba se escreve assim”.
Outro samba a se destacar entre os 14, para quem quer começar a cultuar Gudin, é “Boa maré”, da sua incomensurável parceria com Paulo César Pinheiro. Não só pelo samba em si, delicioso, mas por sua estrutura, que confirma a filiação de Gudin à tradição de um Baden Powell, tanto no violão ao mesmo tempo limpo e cheio de balanço, afeito à sala de concerto e à roda de samba, como naquele jeito tão de Baden de começar o samba lento, triste e depois desembocar numa segunda parte mais alegre, suingada. “Boa maré” lembra também que, depois de Baden, e ao lado de um João Nogueira, um Mauro Duarte, um Dori Caymmi, Gudin é parceiro essencial de Paulinho Pinheiro, o letrista de tantas parcerias, mas algumas centrais em sua inspiração.
Um jeito de fazer samba parece, mais do que qualquer outro disco seu, uma tentativa de Gudin em resumir sua obra. Ele volta, por exemplo, a dar uma de letrista em “Mundo”, mais uma parceria com o ídolo Elton Medeiros. E na qual ele volta a uma tema definidor de sua forma de fazer música, o sentimento da saudade aliado a um desejo de futuro, de transformação: “Mesmo/ Quando lembro da cidade/ Era um tempo cordial bem mais/ A saudade é natural/ Sempre/ Haverá felicidade/ Ao se buscar um canto novo/ Na juventude o amor do mundo está".
No disco, Gudin volta a tentar criar um ambiente natural para o samba em São Paulo, em “Praça 14 Bis”, uma homenagem ao bairro do Bixiga e à Escola Vai-Vai (“Se o samba vem do Rio/ E da Bahia/ O samba também vem/ São Paulo sempre tem/ Bixiga é o samba do lugar”, diz, quase teórico). Volta a flertar com a velha guarda do samba carioca que o formou, ao resgatar do esquecimento um velho samba que fez com Nelson Cavaquinho e permanecia inédito, o típico “Euforia”. Volta a flertar, também, com a vanguarda musical paulistana ao inaugurar parceria com Luiz Tatit, o samba mentalinguístico e algo misterioso “Sensação” (não custa lembrar que Gudin sempre se equilibrou entre o samba carioca e a vanguarda paulistana, parceiro que é de Arrigo Barnabé). Vai de um samba simples que retrata o cotidiano paulistano, como “Jerônimo”, a uma sofisticada e grandiosa parceria com Francis Hime, “Moto perpétuo”.
Num disco que parece abarcar toda uma obra, que busca e consegue abarcar a complexidade da música brasileira, Gudin relembra um samba que fez no final dos anos 60 para um velho festival, “Gostei de ver”. Naquela época, sambista de São Paulo, Gudin parecia uma anomalia. Hoje, ainda é visto com estranheza, o que torna significativo o fato de, na última faixa, “Desprevenido”, dividir a interpretação com os jovens do Quinteto em Branco e Preto e com a cantora Adriana Moreira, todos sambistas e de São Paulo. Gudin não está mais sozinho na Paulicéia. Só precisa ser mais ouvido. E cultuado.