Diário Popular - OLHO NO OLHO -  São Paulo, 13/09/1981

 

( POR QUE GUDIN COM “M”?

- veja na matéria)


Gudim: um maestro que rege seu próprio vôo

MAESTRO QUE SE INTITULA, HUMILDEMENTE, ARRANJADOR, COMPOSITOR DE RELEVO, CUJOS TRABALHOS SÃO RECONHECIDOS NO BRASIL INTEIRO, PRINCIPALMENTE NA FAIXA UNIVERSITÁRIA. SUCESSO EM VÁRIOS FESTIVAIS, AUTOR DO SAMBA ‘GOSTEI DE VER’, EDUARDO GUDIM MOSTRA SEU INTERIOR AOS NOSSOS LEITORES NO EXATO MOMENTO EM QUE APRESENTA SEU NOVO LP ‘FOGO CALMO DAS VELAS’.


 

DIPO - Quem é Eduardo Gudim?

GUDIM – Eduardo Gudim é essencialmente um compositor de música para ser cantada, de música com letra, e tem as outras funções musicais, porque sou maestro arranjador. Maestro é uma palavra que eu não uso. Uso arranjador, porque o maestro é uma pessoa que faz o curso de regência e tem uma especialização que a gente deve ter todo o respeito para chamar de maestro. Então, apenas sou um arranjador. E sou músico instrumentista também. Mas a função principal, que eu exerço mesmo é violão, violão clássico, popular e a minha função realmente é compor melodias para serem cantadas.


 

DIPO – Com que idade você começou a trabalhar com música?

GUDIM – Música para mim foi sempre uma coisa muito forte, desde que eu me conheço por gente. Quando eu escutava disco de música erudita ou qualquer disco, podia ter cinco anos de idade ou menos até, sempre foi uma coisa que me atraiu de uma maneira que eu senti que era diferente das pessoas que me cercavam. Mas o meu encaminhamento se deu aos 13 anos. Peguei aquele tempo do início da bossa nova, então aquele pessoal todo tocando violão muito bem, até que eu escutei o Paulinho Nogueira tocar violão. O Paulinho foi um cara que, sei lá, me deu vontade de aprender a tocar violão. Isso aos 13 anos. Aí eu comecei a estudar com um violonista chamado Antonio Ramos, que está na França atualmente e para mim é um dos maiores violonistas que eu conheci. Tanto que está na França fazendo sucesso, só tocando violão. Estudei algum tempo com ele. Foi assim que eu comecei.


 

DIPO - Qual foi sua primeira composição? Quando você sentiu que tinha vocação para compor?

GUDIM – Bem, como eu disse, minha função principal foi sempre fazer música. Agora eu comecei como instrumentista. Cheguei a tocar violão ainda menino, com 16 anos no Fino da Bossa, porque a Elis me levou no programa e eu me lembro que toquei, até quase que eu nem entrei em cena porque o Juizado de Menores queria me impedir e eu fiquei desesperado, porque era aquela a chance do garoto que vai tocar em um auditório lotado, num programa de importância. Aí, tive que chamar meu pai. Dois minutos antes de entrar em cena eu fui autorizado. Então toquei violão. Daí eu continuei tocando violão até que de repente eu senti necessidade de fazer música. Foi uma coisa natural. Comecei a fazer músicas, inclusive com o Vitor Martins, que agora é parceiro do Ivã. O Vitor estava começando, eu também. É o Vitor Martins que é parceiro do Ivã Lins. A gente começou a fazer algum coisa junto, mas ainda era assim um arremedo. O Vitor já tinha mais prática. Mas a gente não estava, nem ele nem eu, não tinha aquela maturidade. A gente fez algumas músicas, depois ele viajou. Eu continuei e inscrevi uma música no Festival da Record, de 1968. Tinha 17 anos e era o cara mais novo do festival. Lembro-me que botei uma música chamada “Choro do Amor Vivido”, que foi defendida pelos Três Morais e foi ums dos primeiros, senão o primeiro arranjo para grande orquestra que o Hermeto Paschoal fez. Eu já era vidrado no Hermeto. Via o Hermeto tocar à noite e sabia da capacidade dele e pedi ao Hermeto para fazer os arranjos. O Hermeto que escreveu daquela maneira que ele escreve, fora do padrão. Tinha até maestros. Eu me lembro de uma história que tinha o pessoal, os maestros mais tradicionais, achando que o arranjo dele não ia tocar. Então falavam: esse arranjo não toca. E quando o arranjo foi para o ar, foi aquela maravilha. Quer dizer, o Hermeto sempre foi isso aí.


 

DIPO – Esse foi o primeiro grande passo da sua carreira, o festival?

GUDIM: Foi.


 

DIPO – Depois desses festivais, pelo que eu sinto, você caiu na noite paulista? Você até gravou um samba, assim, digamos, como a “Ave Maria”, do Chico Buarque de Holanda, mas com conotações mais populares. Depois você foi para o Rio. Como você vê a sua saída de São Paulo, já que o Vinícius de Morais falava que São Paulo era o cemitério da música? No tempo que você estava aqui em São Paulo você sentia isso?

GUDIM – Não dava para sentir exatamente porque, no tempo que eu comecei aqui em São Paulo (eu sou paulista), era São Paulo, estava tudo aqui nessa época. Tanto que Baden morava aqui, era o tempo do auge da música brasileira aqui em São Paulo. Então, o Rio de Janeiro todo morava aqui. O movimento todo estava aqui. A noite de São Paulo eu freqüentava já com 16 anos a Galeria Metrópole, antigo Jogral; era o Jogral antes da rua Avanhandava. Quer dizer, o comecinho do Jogral. Eu driblava o Juizado de Menores. De repente quando o cara não estava olhando, o Adauto de Souza me colocava lá pra dentro. E assim que eu conheci Paulo Vanzolini e tudo. Comecei a fazer samba, que foi uma coisa que sempre me atraiu. Comecei a compor c om o Paulo César Pinheiro, que é um cara puramente carioca. Conheci o Paulinho num show do Baden, chamado “Mundo musical de Baden Pawel”, que ficou no Teatro Bela Vista em cartaz, no auge do Baden, aqui em São Paulo. E conheci o Paulo assim, chamei ele, falei que tinha músicas e aí a Márcia, que fazia show com o Baden, levou uma fita para o Paulo César Pinheiro. Depois de seis meses p Paulo César me ligou, me deu a fita por telefone, ainda não conhecia o Paulo César Pinheiro, já era parceiro dele. Foi por telefone. Ele tinha um gravador, colocava um lenço no microfone, botava do lado de lá do fone e eu cantava a melodia aqui em São Paulo. Naquele tempo a Telesp não cobrava tanto. Então esse samba foi um negócio assim. Agora, ele ficou uma coisa talvez até muito misturada com o negócio de Rio-São Paulo por causa dos parceiros.


 

DIPO – Qual foi seu primeiro grande sucesso?

GUDIM – Eu acho que foi na época do festival seguinte, de 68 que foi o samba “Gostei de ver”. Que, aliás, eu fiz com o Marco Antonio da Silva Ramos. Foi defendido pelos Originais do Samba e a Márcia cantando. Mas foi na decadência do festival, foi uma fase que a gente de repente não era mais aquela coisa maravilhosa que a gente se reunia e os produtores de disco iam na casa da gente escutar e ver o que era mais bonito. Já foi a fase de pegar o disco em baixo do braço e ir lá catituar, que é um negócio que é até hoje assim e cada vez pior...


 

DIPO – Você tocou no ponto do festival. O Chico Buarque também. Você se considera da mesma geração do Chico Buarque, influenciado por ele ou não?

GUDIM – Não me considero da geração do Chico, uma geração depois, infelizmente.


 

DIPO – Você tem influência do Chico?

GUDIM – Não, do Chico eu não tenho. Acho ele o maior compositor da história da música brasileira, mas eu não tenho influência. Quer dizer, o Chico é um cara de quem tenho todos os discos. Que eu escuto que me emocionam, mas sei que a música dele não tem influência na minha. Eu tenho de Baden Pawel, de Antonio Carlos Jobim, de Paulinho da Viola e de Elton Medeiros. Foram as influências que eu mais senti. O Tom também.

“Acho o Chico Buarque o maior compositor da história

da música popular brasileira”.


 


 


 

DIPO – Na época que você começou a aparecer com música você pegou então o pior momento, o fim, quando estava terminando?

GUDIM – É o momento de batalha. O Chico foi um cara que influenciou todo mundo depois que apareceu. Mas a minha música, quer dizer, o samba não é propriamente de ninguém e a minha música realmente nunca teve, apesar de o Chico ser um cara mais lírico que eu. Eu sou uma outra espécie de samba. Mais lírico no sentido antigo, porque o Chico é também aquela agressividade toda. Mas aquele tipo de melodia, mais melodicamente falando.


 

DIPO – Você tem uma música assim, parece que o nome é “Depressão”, que o pessoal cantou muito uns tempos aí. Não me lembro bem...

GUDIM – Essa música é “Pesadelo”? Não é minha essa música. Essa música o pessoal confunde comigo. Essa música é de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro.


 

DIPO – Mas é que estão ligando a Paulo César Pinheiro que todo mundo acha...

GUDIM – É porque nessa época eu e o Paulo César Pinheiro fazíamos muitos shows juntos. Então cantávamos no show essa música e o pessoal acabou achando que era. A música que eu fiz com o Paulo César Pinheiro e que também teve esse tipo de coisa foi “Mordaça”.


 


 

DIPO – Uma vez o falecido Orlando Silva, que conviveu como Noel Rosa muito tempo, perguntado por mim se ele considerava o Chico Buarque de Holanda no mesmo nível de Noel Rosa, ele disse que jamais, o Noel Rosa foi muito superior. Eu atribuí essa declaração dele, achei muito infeliz, atribuí assim ao processo de saudosismo, viveu no mesmo de Noel Rosa e tal.

GUDIM – O Noel teve contra si muito pouco tempo de vida. O Noel compôs durante 6 anos e morreu. Parece que o Noel compôs tudo o que ele fez em 6, 7 anos. Foi um negócio muito curto, a gente não sabe até aonde o Noel poderia chegar. Eu acho que existe uma esfera aí que é muito difícil comparar. Não dá pra dizer quem é melhor, quem não é. Quer dizer, eu acho o Chico Buarque uma coisa maravilhosa.

“O Noel teve contra si

muito pouco tempo de vida”


 

DIPO – O Noel Rosa era um compositor nato, como é o Chico. Acontece que o Chico Buarque é, além de tudo, um intelectual, ele trabalha mais a música. O Noel tinha uma música, uma poesia mais natural, mais rudimentar. A do Chico também é natural, vem de dentro dele, mas ele dá um melhor trato à música, à letra.

GUDIM – Eu acho que o problema mais é esse aí. Tem um tipo de gente que é difícil a gente medir. A gente acaba se perdendo, medir Noel, medir Chico.


 

DIPO – Você sucede Blecaute?

GUDIM – Não, de jeito nenhum.


 

DIPO – A sua música é trabalhada?

GUDIM – A minha música é trabalhada. Não sou um intelectual. Sou um compositor que estuda música. Intelectual é quem estuda intelectualidade. Eu acho que essa história de fazer música que atinge todas as camadas é um negócio muito complicado. O Brasil são 40 mil países num só. Então, é claro que a linguagem que eu tenho vai atingir provavelmente as pessoas que têm a mesma linguagem. Por exemplo, acabei de fazer uma música com o Aldir Blanc, que é super espontânea. A letra dele é muito bem trabalhada, muito poética, muito bem feita, muito cantável. Ele usou nessa letra imagens as quais as pessoas não têm acesso fácil. Se a pessoa não tiver um certo grau de conhecimento, de leitura, fica mais difícil.


 

DIPO – Mas eu não acho válido nem quando se faz uma música já projetando o mercado...

GUDIM – É exatamente o que eu quis dizer. Por exemplo, quando eu faço uma música, é espontânea dentro do meu espontâneo, dentro da minha linguagem. Agora, a minha linguagem é a linguagem que vai atingir quem tem os mesmos parâmetros que eu. Então eu sei que a minha música não vai atingir, algumas podem chegar a isso, mas atingir realmente o povão como se diz...


 

“Se eu fizer música igual o

Roberto Carlos eu não estarei sendo sincero,

porque não falamos a mesma linguagem”.


 

DIPO – Você não vai fabricar música para determinada área...

GUDIM – Eu nunca fabriquei música. Exatamente por isso que eu não tenho essa preocupação de atingir todo mundo porque eu sei que não seria real. Eu posso então de repente fazer. O que atinge o povão? É o Roberto Carlos? Então deixe eu fazer tal qual Roberto Carlos. Eu não estaria sendo sincero com o que eu faço. Quero ser sincero com a minha linguagem.


 

DIPO – Qual o público que seria seu então? O universitário, o boêmio...? Ou seria simplesmente um intelectual classe média?

GUDIM – Não acho que é isso não. Não acho que dá para separar assim, é esse, aquele, aquele. Acho que não dá para separar...

“Eu acho que essa história

de fazer música que atinja

todas as camadas é um negócio

muito complicado”.


 

DIPO – Então quando você compõe, você está sacando certos...

GUDIM – De um meio que só gente está sacando. Isso é verdade. Agora, ao mesmo tempo, de repente, eu faço um samba, como: “E... maior é Deus, pequeno sou eu. O que eu tenho foi Deus quem me deu”. Foi sucesso no Brasil todo. Mas não foi porque eu quis fazer um negócio assim. Porque é um samba que eu e o Paulo César Pinheiro, me chamou: “vamos fazer um partido aí? Vamos fazer um partido também. A gente sabe fazer, vamos fazer um partido alto. Essa linguagem tá na cara, né?”


 

DIPO – Acima de tudo você se coloca como um profissional da música. Então, realmente, dentro do samba você varia...

GUDIM – Eu vario de acordo com a vontade. É uma coisa assim que, é a vontade de fazer. Vamos fazer um partido, inclusive depois desse partido alto, o que eu tive de encomendas de partido alto para fazer...foi impressionante. Porque esse partido alto foi o maior sucesso. Eu só fiz esse. Deu pra entender?


 

DIPO – Qual foi o maior momento da música popular brasileira? Explique a música popular nesse momento e o momento atual?

GUDIM – Para o meu gosto, o maior momento foi, exatamente, o festival de 1967, que teve por exemplo, o “Cantador” pegando o 6.o lugar, porque “Ponteio” pegava 1.o, porque “Roda Viva” pegava o 3.o, “Alegria Alegria” o 4.o e daí pra frente. Acho que para mim foi um negócio de uma criatividade absurda, assim como o movimento musical. Então era um movimento que até quem não tinha muito valor assim, por osmose, fazia música bem feita.


 

DIPO – Seria aquele período da Record?

GUDIM – Após a bossa nova, ela convergiu nessa geração depois, que foi Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda, Edu Lobo, a geração que veio depois. Esse para mim foi o maior momento, Gilberto Gil, Milton Nascimento. E o incentivo era muito grande. Hoje, as televisões contratam artista de novela por um preço absurdo para ser exclusivo. Naquele tempo era só músico. Então, só a Record tinha quatro contratados que tocavam violão, que eram Paulinho Nogueira, Rosinha de Valença, Baden Pawel e Silvio Santistebam para não tocar em mais lugar nenhum. Apartamento morando aqui e tudo. Imagine como um cara desses se incentivava. Então, voltando àquela loucura anterior, que foi depois dessa fase.

Depois foi mais uma fase de batalha. Após 68, todo mundo sabe que com o AI-5, com as pressões do governo e a falta de liderança e os movimentos todos dispersos. Foi uma geração de batalha, onde eu me incluo, com Ivã Lins, Aldir, João Bosco, Gonzaguinha, eu e tanta gente dessa geração. Essa geração é uma geração mesmo de batalha. O Ari Toledo cantou uma música chamada “O comedor de gilete”, que era do Carlos Lira; não sei se o nome é bem esse, e do Vinicius. De repente ele ficou conhecido pra sempre. De sucesso só teve aquela música e ficou conhecido para sempre, até hoje. Ao passo que um c ara como o Ivan Lins, João Bosco, se de repente vieram e deram um pouco menos, o nego já duvida do trabalho deles. O pessoal está sempre tendo que começar, se alimentar, aquela geração é como se catalogasse todo mundo e todo mundo a geração de hoje é de batalha...


 

“As televisões contratam artista

de novela por um preço absurdo,

para ser exclusivo. Naquele tempo era o músico”.


 

DIPO – Como você lembrou, depois do AI-5, naquela época, fluiu de uma forma espantosa, o iê-iê-iê. Então qualquer débil mental pegava uma guitarra e tinha todo apoio do governo, como Dom e Ravel, porque trazia a juventude para uma irrealidade, para disfarçar. E com isso prejudicou muitos grandes compositores, os grandes cantores da época.

GUDIM– Não só na área musical, mas em todas as áreas.


 

DIPO – Eles tinham todo o apoio divulgando, as besteiras, a própria anticultura que apareceu na época. Foi uma defasagem terrível na música popular brasileira, principalmente aqueles grandes cantores, então apareceu o Chico Buarque...

GUDIM – Por isso que eu digo. Esse pessoal dessa geração já teve seu tempo de marcar. O pessoal da geração seguinte que eu disse, Ivan, João Bosco e todos, foi uma geração realmente de resistência. De você saber que vai fazer o disco e ter que lutar, com o disquejóquei, tem que levar o disco, ter que trabalhar, fazer show até no território do Acre, como o Gonzaguinha fez. É uma geração de o cara ficar batalhando, não tinha mais aquele aparato todo, aquele movimento todo. Então, foi uma geração de batalha. Se você fizer uma comparação assim como certos trabalhos de João Bosco e Aldir Blanc, é uma coisa antológica, eu acho antológica. Acontece que isso tudo conta. São anos que o pessoal ficou batalhando, praticamente resistindo, foi uma geração de resistência.


 

DIPO – Nesse período terrível, o seu primeiro disco gravado surgiu como?

GUDIM – Meu primeiro disco surgiu depois que eu ganhei um festival universitário com uma música chamada “Lá se vão meus anéis”, que foi um samba também com o Paulo César Pinheiro. Aí me chamaram na Odeon para gravar um LP. Depois eu fiz um outro disco que hoje, hoje eu percebo muito, como ele marcou. Foi aquele disco que você citou de “Mordaça”, um disco chamado “O importante é que a nossa emoção sobreviva”. Foi numa época muito ruim, em 73, então esse disco só por essa frase já marcou, que era o que a turma necessitava muito. Por isso que eu digo que foi uma fase de resistência em todos os sentidos.


 

DIPO – Vocês faziam um trabalho não panfletário, dava sua mensagem assim...

GUDIM – Era uma preocupação musical...


 

DIPO – Mas tinha uma mensagem. Só o fato de você falar que “o importante é que a nossa emoção sobreviva” já estava dando uma grande força para uma geração que estava realmente..

GUDIM – Esse disco foi muito bem na época, foi uma beleza. Depois eu saí da Odeon. Bom, nesse tempo, gravei música com muita gente, inclusive o tipo de música que eu estava fazendo era música que todo mundo queria gravar. Gravei com Elizete Cardoso, com Humberto de Carvalho, com MPB-4, muita gente que eu não estou nem lembrado.


 

DIPO – Gudim, você ganhou mito dinheiro com música?

GUDIM – Bom, eu ganhei dinheiro com música bem nessa época. Ganhei tranqüilamente, vivia bem de música. De disco, direito autoral, show. Porque a música é uma bola de neve. Quando a música está tocando, você de repente é chamado para um programa de tv, chamado para isso, para aquilo, quando você vê, você está...


 

“A música é uma bola de neve.

Quando faz sucesso, você é chamado

para programa de TV, shows, etc. Quando não...”


 

DIPO – A Joana esteve aqui e eu concordei plenamente com ela. Ela disse que recebia 12% pela vendagem dos discos. E há um movimento no sentido de que o próprio cantor lance o seu disco. E ela afirmou que passaria de 12% para 90%, o que quer dizer que as gravadoras emgabelam...

GUDIM – O negócio é o seguinte. Esse meu disco novo que acabo de lançar é um disco independente dentro desse raciocínio. Agora, realmente, essa porcentagem até que está alta. Como intérprete, é normalmente 5%, 7%. É uma glória já, como intérprete. E o dinheiro destinado ao compositor é ridículo. Pegam por volta de 4%, 4,8%. Esse dinheiro é destinado a pagar o compositor. Então, normalmente, se o LP de uma cantora que não é compositora, uma cantora, tem 12 músicas, normalmente a música tem dois parceiros, então é 4% do dinheiro de um disco para dividir por 24 pessoas e isso vai dar 0,000%.


 

“O cantor agora está revoltado

porque o compositor está gravando

e não está dando música para ele”.


 

DIPO – Aliás, vamos aproveitar aqui para mandar uma paulada também para os intérpretes, para os cantores, porque eu nuca vi um cantor mencionar o nome de um compositor. Isso é um absurdo...

GUDIM – Os cantores agora estão muito revoltados porque o cantor está gravando e não está dando música para os cantores. Isso é uma verdade. O cantor normalmente não é tão apegado a uma filosofia de trabalho, ele é apegado ao sucesso. Então os cantores vão se moldando conforme a maré. Já o compositor, que é um criador, se ele for realmente um cara pra valer, então ele não vai se moldar conforme a maré, ele tem um trabalho aviver. Então, às vezes, você encontra muita dificuldade para gravar. Vamos supor um samba que não tenha um refrão, que não tenha... ou outro tipo de música. Então, a gente acaba, se for depender do cantor, na situação que está, que o cantor está desesperado, porque ele sabe que se não vender tantos discos a gravadora manda ele embora e ele tem que vender. Não é culpa dele também, mas ele não é normalmente tão apegado, ou vamos dizer assim, tão fiel a uma filosofia de trabalho, às vezes nem tem.

“O cantor está desesperado

porque sabe que se não vender

tantos discos a gravadora o manda embora”.


 

DIPO – E o pior que acontece o contrário quando ele vende muito. O contrato que assinou com a gravadora é escravocrata. Ele fica totalmente dependendo da gravadora...

GUDIM – E o compositor, se ele for normalmente um cara pra valer, ele não vai se sujeitar. Então, normalmente, o compositor acaba tendo que gravar, como é o meu caso. Eu gravo porque é como se fosse um livro que eu escrevi, eu quero que todo mundo leia. Então estão lá minhas 12 ou 10 músicas no disco para o pessoal saber o que é que eu estou fazendo. E aí sai do jeito que eu quero, não tem aquela preocupação que o cantor tem de a faixa A, lado A. Porque existem coisas incríveis. Eu tenho experiência assim de um samba que eu fiz com Paulo Vanzolini, que estava fazendo sucesso e a gravadora mandava não tocar porque tinha que tocar primeiro um outro disco. Depois que aquele fizesse sucesso e tal, aí poderia o meu fazer sucesso. Aí você fica cabreiro. Por isso que compositor gravar não está fácil.


 

DIPO – Para sua músicas quem você tem encontrado para melhores intérpretes?

GUDIM – Quem mais gravou a minha música de um jeito assim que a gente teve muita ligação afetiva, porque não sou compositor só de samba, como disse “Mordaça” sempre foi o MPB-4, com quem eu mais me identifiquei. Na parte de samba, a Clara Nunes, a Beth Carvalho.


 

DIPO – A sua música tem necessariamente que conter uma mensagem?

GUDIM – Não, não tem. A maioria das minhas músicas nem tem essa mensagem. Mensagem no caso social, não é isso? Não tem.


 

DIPO – Você abandonou a engenharia para fazer música?

GUDIM – É. Larguei a Faculdade de Engenharia no 2.o ano, porque eu já vivia de música. Não é aquele cara que larga a faculdade de Engenharia para ir tentar música. Eu já fazia parte, foi inclusive na melhor fase, 71, 72 quando eu ganhei o festival universitário. Então aí ou parava de trabalhar...Tinha que largar porque não dava tempo mesmo de trabalhar com as duas coisas.

“Música e matemática têm

uma ligação enorme: estruturas”.


 

DIPO – Você tinha vocação para Engenharia?

GUDIM – Eu não sei, eu gosto de matemática. Matemática é uma coisa que me atrai. Inclusive música e matemática têm uma ligação enorme: estruturas.


 

DIPO – E no seu LP, como você conseguiu tantos parceiros de peso para formar esse disco independente?

GUDIM – Para começar o nome do LP é “Fogo Calmo das Velas”. Porque o fogo calmo das velas é uma coisa persistente, está sempre queimando, é mais ou menos isso e é calmo. Agora, o LP eu quis nesse LP abrir um pouco as parcerias, além de fazer com o Paulo César Pinheiro. Então eu fiz uma música com o Rui Guerra, através do Milton Nascimento. Eu liguei para o Milton e falei: como que é, e aquela música com o Rui, que eu quero fazer. Aí o Milton me levou na casa do Rui, a gente fez. O Rui me deu a letra por telefone. Depois fui ao Rio e acabei a música com ele. Aí eu conheci o Cacaso. O Cacaso também foi um cara que eu conheci da mesma maneira que o Paulo César Pinheiro. Chamei o Cacaso e mostrei o trabalho. Ele já me conhecia bem, mas não pessoalmente, e a gente já tem uma boa quantidade de música. Depois foi Sérgio Natureza, um cara que quando fez “Vela no Breu”, com Paulinho da Viola, me chamou muita atenção. Depois fez “As aparências enganam” com a Elis e eu achei o cara muito bom. E conheci ele da mesma maneira também. E por fim, o Aldir Blanc, que é um cara que eu sempre namorei desde que ele apareceu com a primeira música que foi “Amigo é pra essas coisas”, que para mim é uma beleza. Então a gente acabou fazendo. Então, eu, o Aldir, o Sérgio Natureza, Cacaso, Paulo César Pinheiro e o Rui Guerra. Além disso, nesse LP eu tive muito boa vontade por parte dos músicos que cooperaram comigo, que tocaram o disco e os cantores que vieram dar força, como o MPB-4 que veio para São Paulo para gravar uma faixa que vai abrir o disco, o contrabaixista Sérgio Leite, o baterista Arismar do Espírito Santo, a Márcia como cantora, Maria Marta, Vera Coutinho, com quem eu devo começar a fazer show agora, Vicente Barreto, Paulinho Nogueira, Celso Machado.


 

DIPO – Você acha que é o melhor trabalho de sua carreira?

GUDIM – Eu acho tranqüilamente o melhor disco que eu fiz. Como eu fiquei praticamente dois anos parado, sem gravar, sem fazer show, fiquei um ano ou dois, então eu tive assim muito tempo para jogar fora o que não era legal. Escolhi as melhores letras, acho que é o melhor disco.


 

DIPO – Na sua opinião, qual o músico que mais influenciou você, no violão?

GUDIM – Em violão, como a grande maioria dos violonistas da minha geração, Baden foi o pai. O Baden tem uma maneira de tocar violão, que o violão vira outra coisa. Violão era uma coisa e a partir do Baden virou outra, um instrumento que “grita”.


 

“Compositor é o Baden,

o Paulinho da Viola, Elton Medeiros,

Antonio Carlos Jobim.

Foram os que mais me influenciaram”.

DIPO – E compositor?

GUDIM – Compositor é o Baden, o Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Antonio Carlos Jobim, foram os caras que eu mais senti que me influenciaram na maneira de compor. De gosto, em ter tido influência, Milton Nascimento, Edu Lobo, Nelson cavaquinho, Pixinguinha.


 

DIPO – Você foi censurado nesse período de obscurantismo?

GUDIM – Eu não cheguei a ter esse problema. Eu tive uma música que foi censurada seis anos seguidos. Agora está nesse LP. Chama-se “Teatro de Revista”. Eu cheguei a me auto-censurar, quer dizer, perdi música, fazia outras. Agora é lógico que de repente, inconscientemente, é claro, todo mundo, quem diz que não é porque quer ter a música presa. Então inconscientemente não tem quem não se castrou nessa época. Tenho uma história muito engraçada. A gente estava fazendo o show “O importante é que a nossa emoção sobreviva”, no Rio, em 74. Então a censura, como o show estava muito em cima, as madames da censura sentaram no ensaio, na primeira fila para, além de analisar o show, analisar as músicas também. Tem duas histórias que foram engraçadas. De repente tinha uma mensagem, uma música que chama-se “Essa conversa”, que falava assim: “Ah, essa conversa todo dia isso é cantar para boi dormir”. Aí começava: até quando isso vai durar? E naquele tempo eles censuravam tudo. Até “Maior é Deus, pequeno sou eu” foi censurada e eu tive que ir lá para explicar. Então essa história foi a seguinte: na hora que a gente estava cantando, tinha sempre um texto no show, então o Paulo César Pinheiro falou: essa música aqui foi feita por um cara muito chato, que anda pelos bares e falou até o nome do cara. Quando ele chega todo mundo vai embora e ninguém agüenta a conversa dele e tal. A mulher da censura ficou com a cara assim, nós cantávamos: “Ah, isso é conversa pra boi dormir, quando é que isso vai mudar, até que ponto vai se engolir”. E ela ria, achava engraçadíssimo. Tem uma outra também que o Paulo César Pinheiro era muito marcado pela música “Pesadelo”. E até hoje ninguém entendeu como é que passou: “Quando um muro separa uma ponte une”. Essa música já tinha sido liberada, mas a gente até com medo que de repente a pessoa já escutasse essa música no show: “Ah, então, foi você que fez?”, e cortasse todas as outras. Então o Paulinho fez um sinal. A música tem essa marcação: quando um muro separa uma ponte, um negócio bem arrastado que dá aquela impressão de tanque, aquela coisa marcial. Então eu comecei a tocar no último traço do violão uma batidinha de samba teleco-teco, então o Paulinho cantava assim: “Quando um muro separa uma ponte une-oi”. Então ela não percebeu a música que era. Quando ele cantava oi parecia a Carmem Miranda cantando samba antigo.


 


 

DIPO – O “Apesar de Você”...lançado, a censura levou seis meses para descobrir que o negócio era com o sistema. Seis meses...

GUDIM – Inclusive foi a primeira vez que alguém teve essa idéia, através da metáfora. Eu acho que foi a primeira. Agora, o “Pesadelo”, quando o muro separa, não tem metáfora, é direto, ”você corta um verso eu escrevo outro”, quer coisa mais direta do que isso? Então, só tinha um jeito de fazer cantar ali, você corta um verso eu escrevo outro-oi.


 

DIPO – Se o sujeito tivesse um mínimo de inteligência ele não iria ser censor...

GUDIM – Também tem explicação pra isso. O mínimo de sensibilidade, não é? Mas é isso.


 

DIPO – A partir desse disco o que você pretende?

GUDIM – A partir desse disco, que inclusive tem a coordenação de Otávio Martins, que trabalha comigo, a gente tem que fazer esse disco tocar e vender, é um disco independente, disco de batalha, e tem que fazer muito show. Até eu falei: se tivesse o Parque Shangai eu ia lá cantar.


 

DIPO – A melhor forma de explicação é essa aí...

GUDIM – É a única que tem por enquanto. Hoje, os profissionais pagam para tocar em programas de televisão, em programas de auditório. O cara não recebe mais pelo serviço. Isso é uma coação, é uma chantagem, um negócio nojento, o cara vai trabalhar, o único trabalho que ele tem, que é o trabalho dele, ele paga em nome dessa promoção. Então, se a gente não quiser entrar nessa, não quiser se escravizar, não é se marginalizar, é ser um pouco alternativo, porque marginalizar não adianta, tem que ser um pouco alternativo. Então não pode ser um disco independente também para vender de mão em mão. Você cria seu sistema de vendas, você acredita nele, é isso.


 

DIPO – Eu acho inclusive hoje que quando um cantor diz que está fazendo música para o povo, acho isso uma demagogia, porque o disco hoje é um negócio elitista. O povo vai pagar mil cruzeiros por um LP?

GUDIM – Inclusive a venda de disco hoje em dia está um problema. Disco de Ouro há dois anos atrás era 400 mil discos, hoje se ganha com 100 mil.


 

DIPO – Você espera atingir as camadas universitárias através de circuito de shows?

GUDIM – Acho que eu não quero raciocinar que tipo de camada. Eu quero fazer o show simplesmente. Eu acho que a gente tem é que trabalhar.

DIPO – Porque que agora Eduardo Gudim com “m” e não com “n” que é a forma correta de escrever seu nome?

GUDIM – O negócio é o seguinte. Eu sempre escutei meu nome errado por aí. O pessoal vê com “n” já é mais difícil de ler. Então, de repente, a pessoa está falando “Gudan”. Além disso ainda existe o Eugênio Gudin, Gudan, sei lá, ex-ministro da Fazenda, que aliás não tem nada a ver comigo. Então eu preferi colocar meu nome no sentido mais comercial, porque o “m” no fim não vai alterar a pronúncia. O pessoal vai falar Gudim porque não tem jeito de falar de outro jeito. Com “n” é um sobrenome meio estrangeiro, afrancesado, o pessoal vai falar “Gudan”, aí fica aquela confusão. Como estamos na época da batalha, vamos facilitar isso...

 

PARTICIPARAM DESSA ENTREVISTA: NICOLAU CHAUÍ, HILTON VIANA, TARCÍSIO MACHADO CARVALHAES E VALGÊNIO RANGEL. EDIÇÃO E TEXTO FINAL DE TARCÍSIO MACHADO CARVALHAES.