Gudin e seu jeito de fazer samba
Tom Cardoso, de São Paulo
05/10/2006
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Um garoto de 16 anos aguarda ansioso a chegada do elevador ao andar térreo do Hotel Normandie. Está ali para tentar uma chance no programa Fino da bossa, da TV Record, apresentado por Jair Rodrigues e Elis Regina, hóspede do hotel. A porta do elevador se abre e Elis, Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal dão de cara com o jovem músico que, tímido diante dos ídolos, mal consegue explicar o motivo de sua presença.
“Não fala nada, toca logo!”, pede Elis. O garoto toma coragem e canta, sem tremer, “Morena boca de ouro”, de Ary Barroso, e deixa o hotel direto para os estúdios da TV Record.
Hoje, passados 40 anos do batismo de fogo, Eduardo Gudin é um dos mais completos músicos da cena paulista. Apaixonado por samba, parceiro de Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Paulo Vanzolini, Aldir Blanc, também tem um pé fincado na música de vanguarda. De formação erudita - estudou orquestração com Leo Peracchi e Nelson Ayres - é ligado à turma da Lira Paulistana, casado com Vânia Bastos e parceiro de Arrigo Barnabé. Seu novo CD, Um jeito de fazer samba (leia resenha aqui), é um espelho de todas as influências, que não foram poucas.
Gudin não sabe dizer como descobriu o samba. Não havia ninguém na família que tocasse tamborim ou pandeiro ou que fosse a uma loja comprar um disco de Cartola. Mas na sala havia um disco, solitário, chamado Batucada fantástica, com samba-enredos de escolas do Rio. “Comecei por ali e também ouvia muito o programa de Morais Sarmento, um radialista da época que dava muito espaço para o samba”, diz. O compositor lembra do impacto causado ao ouvir um disco de sua irmã mais velha, um tal de Chega de saudade, de João Gilberto. “Eu tinha apenas 9 anos, uma idade em que as crianças não se interessavam por bossa nova. Mas eu fiquei maravilhado, completamente maluco, como quase todo mundo que gostava de música”.
Depois da estréia em grande estilo no Fino da bossa, Gudin tomou coragem e escreveu sua primeira composição, “Choro do amor vivido”, no Festival da Record de 1968. “Na época, eu tinha aulas de violão com Toninho Ramos, um grande músico. Não era ainda, claro, um músico pronto, mas começava a me interessar pelo lado erudito das canções, pela orquestração dos arranjos. E na minha composição de estréia no Festival de 1968 tive o privilégio de ter como arranjador ninguém menos do que Hermeto Pascoal, que, aliás, fez o primeiro arranjo de orquestra de sua carreira”. “Choro de amor vivido” passou pela eliminatória, mas não ficou entre as finalistas do festival. Porém, no ano seguinte, com “Gostei de ver”, Gudin emplacou o terceiro lugar, no festival vencido por Paulinho da Viola, com “Sinal fechado”.
Gudin não se sente à vontade de ser chamado de sambista, muito menos de sambista paulista. “Esse negócio de separar o samba por região não existe. Parece que o Rio fica no Pólo Norte e São Paulo, no Pólo Sul. São cidades vizinhas. E tem mais: o rádio há muito tempo encurtou essa distância. Meu pai, por exemplo, adorava cantar “Pelo telefone”, do Donga, que ele ouvia na programação. Paulo Vanzolini adorava Noel Rosa. E tenho certeza que há muito de Vanzolini na música de Chico Buarque”, diz. “Sim, temos o samba de Pirapora, o sotaque do Bixiga de Adoniran Barbosa, mas, mesmo nesses casos, você vai achar influência do samba do Rio. Ninguém pode ficar impune ao ouvir Noel Rosa, Cartola, Zé Ketti e Nelson Cavaquinho”.
Antes de lançar o primeiro LP, em 1973, pela Odeon, Gudin venceu o Festival Universitário da Canção, em 1970, com “E lá se vão meus anéis”, samba gravado com sucesso pelos Originais do Samba e que iria praticamente inaugurar uma profícua parceria com Paulo César Pinheiro, com quem compôs belos sambas de resistência, como “O importante é que nossa emoção sobreviva”, de 1974. “Eu tive a sorte de ter grandes parceiros. Paulinho é um deles. Nós éramos dois moleques quando nos conhecemos, em 1968. Ele, aos 16 anos, tinha acabado de vencer a Bienal do Samba, com ‘Lapinha’ (interpretada por Elis Regina), parceria com Baden Powell. Eu adorei aquilo e mandei, por meio da Márcia (cantora) uma música pra ele, que, imediatamente fez a letra de ‘Olha quem chega’”.
E os vanguardistas? No Festival Universitário de 1979, produzido e organizado por ele, Eduardo Gudin conheceu Arrigo Barnabé. Logo viraram parceiros, na valsa “Cidade oculta”, que fez parte da trilha do filme de mesmo nome, dirigido por Chico Botelho, em 1986. “Eu adorei ‘Clara Crocodilo’, de Arrigo, e achava interessante sua forma radical de experimentar o atonalismo, sua influência erudita, o gosto pela orquestração, que são coisas que eu também sempre usei na minha música. "Mas não sou nem de longe um músico vanguardista", apesar de ter grandes amigos e parceiros, como Luiz Tatit, e ser casado com Vânia Bastos. "Estou mais próximo de Tom Jobim do que de Arrigo. Minha paixão é a bossa nova. O que me prende é a canção, a melodia e a letra”, diz.
No novo disco,
Um jeito de fazer samba, Gudin exerce
como nunca o talento de melodista. “Eu deixo tudo por conta do
violão. O violão comanda os arranjos, o ritmo das canções” diz Gudin. Estão ali
velhos parceiros, como Elton Medeiros (“Mundo”),Paulo César Pinheiro (“Boa
maré”; os parceiros podem ser vistos na foto ao lado) e Paulinho da Viola
("Sempre se pode sonhar", com participação do próprio) e novos: Francis Hime
("Moto perpétuo") e Luiz Tatit ("Sensação"). Mas a surpresa do disco é uma
parceria engavetada há anos, "Euforia", feita com o padrinho de sua filha:
Nelson Cavaquinho.
Gudin conheceu o autor de "Folhas secas", no lendário Bar do Alemão, reduto do samba em São Paulo, nos anos 70, freqüentado por Paulinho da Viola, Clara Nunes, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Beth Carvalho e outros bambas. Curiosamente, hoje Gudin é dono do mesmo bar, mas quase não tem tempo para beber por lá - deixa tudo na mão do sócio, um amigo de infância. Nelson Cavaquinho era um freguês fiel e um homem, segundo Gudin, que vivia num mundo todo particular. Ele lembra do dia em que dirigindo o carro, ligou o rádio e passou a ouvir uma entrevista do compositor para o programa Balance, da Excelsior. "A certa altura, o apresentador perguntou a Nelson quais eram os seus planos. E ele: ‘Meus planos? O Gudin vai passar aqui para me pegar e vamos beber no Bar do Alemão’".
