GAZETA DE PINHEIROS , São Paulo, 5 de dezembro de 1986

 

 

Os novos sons de Eduardo Gudin

Com seu novo disco, o compositor  Eduardo Gudin olha para o futuro e voa cada vez mais alto na música brasileira.

 

 

    Ah, essa mania paulistana de soltar balões. Eduardo Gudin, músico paulistano de 35 anos, acaba de soltar o seu. Os bombeiros, porém, podem ficar sossegados pois o “Balãozinho” de Gudin não leva perigo para os edifícios, fabricas e casas desta cidade . Este é o nome de seu último LP, que vem iluminado com sons diferentes dos outros cinco anteriores.

    A garoa encharca o asfalto da Rua Pedroso de Moraes. Os carros passam velozmente, na paulistana pressa de chegar em casa. Na varanda de seu bar. O Vou Vivendo, aqui em Pinheiros, Eduardo Gudin está calmo e feliz com seu disco nas mãos. É sem pressa que ele recorda quando começou a penetrar na divertida roda do samba brasileiro. “Também sou ligado aos sambistas de São Paulo, é claro. Tanto que fui parceiro do Adoniran, do Paulo Vanzolini. Mas sempre fui mais ligado os pessoal do Rio. O Elton Medeiros, o Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Cartola...”.

Ouvindo Música Erudita desde criança, Gudin abraçava um violão já aos 16 anos, tocando no programa “Fino da Bossa”, que Elis Regina fazia na antiga Tv Record. Foi ali e também na Bienal do Samba, realizada aqui na cidade em 1967, que ele conheceu vários bambas. Entre ele Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro e Elton Medeiros, que chama carinhosamente de “meu professor de samba”. Paulo Vanzolini ele conheceu na galeria Metrópole, no último ano da década de 60. A galeria nesta época era reduto de jornalistas, intelectuais e artistas, meio em que Vanzolini transitava com desenvoltura, pois já era o festejado autor de “Ronda”.

    “O Vanzolini vivia cantarolando uma música minha”, conta. “Aí resolvemos fazer uma parceria”.

Porém, este seu novo disco revela um outro lado musical, insuspeitado por alguns. “As pessoas dissociam o sambista de um conhecimento musical mais profundo”, ele reclama. “Como se o sambista não pudesse conviver com o conhecimento musical”. Por isso, muitos torceram o nariz quando souberam de sua parceria com Arrigo Barnabé. “Muita gente dizia: mas como é que pode?”, o músico diz indignado. Para provar que pode é que ele fez o “Balãozinho”, dedicado ao amigo Hermeto Paschoal. Foi quando Hermeto gravou sua participação no disco que Gudin percebeu que poderia alçar vôos maiores. “O Hermeto deixou aquele som dele na primeira gravação . Isso me criou uma obrigação de levar o disco para um determinado lado. Foi uma espécie de bússola para mim”.

 

“Todas as canções pelo tempo” 

    Além de Hermeto, o disco tem participação de Vânia Bastos, Arrigo Barnabé, Arismar do Espírito Santo, Heraldo do Monte e o grupo Canto a Canto, que gravou “Verde”, sucesso no Festival da Globo, na voz de Leila Pinheiro. “A música “Verde” já tem muito desse tipo de som que quero fazer. É um samba mais sofisticado, explica Gudin.

Para a voz de Eliete Negreiros, ficou a música que dá título ao LP. A cantora desejava a música para seu próprio disco, mas acabou interpretando-a no disco do autor. “Balãozinho” é o próprio disco”, comenta Gudin. “É como eu digo lá: “todas as canções pelo tempo”. E a Eliete cantou com a maior felicidade. É uma cantora inteligente”. A música é um elogio rasgado a Tom Jobim, por quem Gudin não esconde  admiração. “Jobim é uma diretriz. Esta na música de todo mundo”.

    O compositor esta animado. Já sente resposta ao seu novo trabalho, através de colegas e críticos que ouviram o disco.  Mas houve algum espanto com as tonalidades que colocou em algumas canções. “Quando gravamos a música Balãozinho, alguém da orquestra perguntou que acorde era aquele. Logo respondi que era o acorde” “Jack Palance” ou seja. Acredite se quiser, ele conta divertido.

Apesar de estar na luta para ser reconhecido como compositor de caminhos modernos e sofisticados Gudin faz questão de deixar claro que o seu lado sambista ainda batuca forte em seu corpo. “Nada muda a vontade de fazer um samba para ser tocado com cavaquinho, surdo e tambor. É aquele negócio de passar a noite inteira batucando. Já esta coçando...”, ele diz, sorrindo. Seus dedos, acompanhando as palavras, ficam tamborilando sobre a mesa do bar.  Jota

                                                      

                                                                                              

                             Numa dessas madrugadas de quarta-feira, quando o pessoal da Gazeta invariavelmente completa com um chope o fechamento da edição da semana, o dono do bar também estava lavando sua alma. É que o Gudin acabava de chegar, entre feliz e ansioso, com a fita de seu novo disco “Balãozinho” que nos mostrou em primeira mão.

     Não sou crítica musical. Então fico à vontade para ser tremendamente tendenciosa. Quem conhece música ou sabe gostar, quem gosta de Tom Jobim e Gudin não pode perder. Aquele sambista de olhos claros que embala a roda de samba “do Vou Vivendo” sabe das coisas. E sabe tanto, que entregou a tarefa de embalar o seu som a um outro moço de olhos claros, o cearense Ribamar de Castro, diagramador aqui da casa. Só poderia dar coisa boa. Ouçam o disco e o aguardem com carinho na capa do Riba. Esses moços vão continuar voando cada vez mais. Bem Balãozinho... (Célia de Souza).