Eduardo Gudin – 40 anos de música
Ao longo de quatro décadas de incessante trabalho e serviços prestados à música popular, Eduardo Gudin imprimiu efetivamente sua expressão artística no cenário cultural brasileiro. Tímido, resguardado por trás de retinas capazes de apreender – e compreender – o mundo dos afetos e suas sublimações, compôs uma obra repleta de sambas, canções e peças instrumentais, prova de seu amplo desdobramento como compositor, letrista, cancionista, arranjador, produtor de discos e musicais e, antes de tudo, um criador efetivamente atrelado a uma estética própria, capaz de conciliar beleza, refinamento e sofisticação em suas melodias.
Paulistano, Eduardo dos Santos Gudin nasceu em 14 de outubro de 1950, e desde cedo galgou seus passos no caminho da música, aprendendo violão aos 13 anos, para três anos mais tarde estrear no programa O Fino da Bossa, a convite de Elis Regina, e conduzido ao palco pelo sambista Jair Rodrigues. E neste clima de efervescente criatividade, atuou nos famosos festivais promovidos pela TV Record, classificando-se com Choro do Amor Vivido (1968), e Gostei de Ver (1969), compartilhando os tablados com os já consagrados Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, e Paulinho da Viola.
Com o maestro Théo de Barros, iniciou seus estudos de harmonia e improvisação, em 1969, e no ano seguinte gravou seu primeiro compacto, iniciando sólida parceria com o compositor Paulo César Pinheiro – lá estava o primeiro samba dos dois, Olha quem chega, mais tarde gravado por Elizeth Cardoso. Juntos, Gudin e Pinheiro vencem o Festival Universitário da Canção, com a música E Lá se Vão Meus Anéis, primeiro grande sucesso do grupo Os Originais do Samba.
A carreira discográfica começou com a gravação de seu primeiro LP, em 73, lançado em 74 pela EMI Odeon, trabalho que já apresentava emblemáticos sambas, dentre eles A Velhice da Porta Bandeira, Desperdício, Deixa teu mal, estes com Pinheiro, com quem realizou, no mesmo ano, o inesquecível projeto “O Importante é que A Nossa Emoção Sobreviva" (1974 - Odeon), juntamente com a cantora Márcia, alcançando repercussão nacional com dois discos (o segundo no ano seguinte, em 75), e shows realizados por todo o país.
Em 1975, gravou, ainda pela Odeon, seu segundo disco autoral, Mãos Vazias, iniciando também seus trabalhos como arranjador (com destaque para o disco Ronda, de Márcia, no qual atuava também como produtor), alçando novos vôos, ao estudar orquestração e aperfeiçoamento com o maestro Léo Peracchi.
A partir daí deu continuidade a seus LPs, Coração Marginal, (Continental – 1977), Fogo Calmo das Velas (1981 – Continental), e Ensaio do Dia (1983 – Continental), destacando-se como músico, intérprete, compositor e arranjador, discos nos quais apresenta novos parceiros - Paulo Vanzolini, Adoniran Barbosa, Hermínio Bello de Carvalho, Roberto Riberti, Cacaso, Aldir Blanc, Costa Netto, Arrigo Barnabé, Elton Medeiros, Sérgio Natureza, entre outros.
Atento aos novos talentos, lançou a cantora Leila Pinheiro, no Festival promovido pela TV Globo, em 1985, na interpretação do samba Verde (parceria com Costa Netto), classificada em 2º lugar.
Participações especiais de intérpretes e músicos como Roberto Sion, Eliete Negreiros, Hermeto Paschoal, Heraldo do Monte, além de grande orquestra executando arranjos do próprio Eduardo Gudin, enriqueceram seu LP seguinte, Balãozinho (1986 - Continental), também lançado no Japão, e que contou com a cantora Vânia Bastos, com quem, mais tarde, iniciou parceria em shows de grande êxito. O resultado foi mais um reconhecido disco, Eduardo Gudin e Vânia Bastos, lançado em 1989 pela Eldorado, com constantes relançamentos, inclusive no exterior.
À galeria de seus grandes intérpretes – no qual já constavam nomes como MPB4, Clara Nunes, Jair Rodrigues, Elizeth Cardoso, Carmen Costa, Dick Farney, Isaurinha Garcia, Marília Medalha, Tânia Maria -, agregam-se outros, como Gal Costa, Paulinho da Viola, Vânia Bastos, Leila Pinheiro, e Arrigo Barnabé, que gravou Cidade Oculta, parceria dos dois, para trilha do filme homônimo.
Após uma boa temporada de shows com Vânia Bastos e Leila Pinheiro, dedicou o ano de 1994 para compor, fazer arranjos, e deu início a uma nova fase em sua produção, ao gravar uma de suas obras primas, o CD Eduardo Gudin & Notícias Dum Brasil, lançado no ano seguinte, que revelou a cantora Mônica Salmaso, solista integrante do grupo.
No ano de 1996, Gudin reencontrou Márcia e Paulo César Pinheiro no show Tudo que mais nos Uniu, cujo resultado foi o CD gravado ao vivo no SESC Pompéia, revisitando temas do musical de 74/75, e apresentando inéditas.
Após retomar o conceito do projeto Notícias Dum Brasil, gravou, em 1998, o CD Notícias Dum Brasil – Pra Tirar O Chapéu, com novos vocalistas e músicos, trabalho premiado pelo jornal “O Globo” do Rio de Janeiro, entre os oito melhores do ano, é considerado o melhor disco do ano pelo júri altamente especializado do “Prêmio Movimento de Música”.
Neste trabalho, apresentava sua primeira parceria com Paulinho da Viola (o samba Ainda Mais), parcerias com Guinga (Conversar Comigo e Etérea, esta interpretada por Vânia Bastos).
No ano seguinte, Gudin realizou um especial para a TV Cultura, gravado ao vivo no SESC Pompéia, com as participações de Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Hermeto Paschoal, Chico César, Vânia Bastos, Leila Pinheiro, Vânia Abreu, Toninho Carrasqueira, Academia Paulista de Cordas e o grupo Notícias dum Brasil.
Em 2000 foi convidado a participar, juntamente com Arrigo Barnabé e Vânia Bastos, do concerto comemorativo dos "10 anos da Orquestra Jazz Sinfônica", do qual, junto com Arrigo, foi responsável pela formação (em 1991), e diretor Artístico da orquestra até 1991.
Seus 50 anos foram comemorados com um show com Paulo César Pinheiro e Vânia Bastos no SESC Pompéia, em novembro de 2000. Este ano foi dedicado à criação de arranjos e preparação para as gravações do CD “Luzes da Mesma Luz” (Dabliú Discos), que teve como intérprete a compositora e cantora Fátima Guedes, acompanhada por excelente orquestra formada por Gudin especialmente para o projeto.
Dentre os importantes shows deste período, destacam-se a temporada ao lado de Paulinho da Viola (2003 – SESC Vila Mariana), e apresentações com a Orquestra Jazz Sinfônica (2004 - Teatro Sérgio Cardoso), com Leila Pinheiro, Vânia Bastos e Fátima Guedes, no qual apresentava composições e arranjos próprios, além do encontro com Francis Hime, de quem se tornou parceiro, e realizou shows ao lado de Olívia Hime e Vânia Bastos (2005-SESC Vila Mariana)
Em 2005 abriu temporada com a nova formação do seu grupo Notícias dum Brasil, iniciando o processo de seu novo disco. Em janeiro de 2006 apresentou oficialmente, e pela primeira vez, o grupo com sua nova forma, e no mesmo ano lançou o CD Um jeito de Fazer Samba (Dabliú Discos), trabalho centrado na composição violonística do autor, apresentando novas parcerias com Paulo César Pinheiro, Paulinho da Viola, Luiz Tatit, entre outros.
A comemoração de seus quarenta anos de carreira se inicia neste projeto idealizado pelo SESC Pompéia, propondo-se a realizar uma espécie de “radiografia” da obra do compositor, homenageando “criador” e “criação”, com foco em suas várias faces, através de um roteiro que vislumbre a importância dessa obra no panorama da música brasileira.
As presenças marcantes de alguns parceiros e intérpretes permitem nossa viagem sobre este denso trajeto – participações que se justificam tematicamente, em relação à vida e obra de Gudin. Nessa grande festa, Jair Rodrigues interpreta importantes sambas, com destaque para Meu Pai Falou tá falado, (gravada pelo sambista na década de 70), e os reconhecidos Velho Ateu e E lá se vão meus anéis, em histórica releitura. Cumpre lembrar que foi Jair a primeira pessoa a levar Eduardo Gudin aos palcos, nos idos de 60, quando tudo começou. O inventário de sambas se desdobra com as cantoras Dona Inah e Mariana Aydar, num encontro de gerações que abraça as parcerias de Gudin com Paulo César Pinheiro, dentre elas a primeira composição da dupla, Olha quem chega, interpretada por Dona Inah, bem como os clássicos Chorei, Veneno e Maior é Deus, essa recentemente gravada por Mariana, em seu CD de estréia.
No roseiral das intérpretes deste múltiplo cancioneiro, Vânia Bastos traz os enleios da constante “paulicéia” presente no imaginário do compositor, apresentando as inesquecíveis Paulista, Lenda e Cidade Oculta, diálogos e ressonâncias com a vanguarda paulista, reforçadas pela presença de Ná Ozzetti, a quem couberam as parcerias de Gudin com Arrigo, Rennó e Luiz Tatit. Fátima Guedes apresenta nuances da vertente “cancionista” do compositor, nas viscerais Luzes da Mesma Luz e Canção Serena, em Eu te amo (inédita parceria dos dois), além de Samba de Verdade, de Gudin e Costa Netto.
Os Parceiros também demarcam este território musical/afetivo: Paulinho da Viola, com os sambas Ainda Mais e Sempre se Pode Sonhar (ambas de Paulinho e Gudin), o samba Documento (de Gudin e Paulo César Pinheiro, gravado por Paulinho na década de 80), bem como Pensamento, choro de Gudin, confluência direta com o lado instrumentista do mentor carioca. O elo se estende com a presença de Elton Medeiros, na apresentação da parceria em Mundo, Melhor Carinho e Estrela, e homenageando o também parceiro de ambos, o veterano Paulo Vanzolini, com o samba Mente (Gudin-Vanzolini). Guinga traz seu violão e sua voz rascante na interpretação das valsas Conversar Comigo e Etérea (Guinga-Gudin),e, junto com Vânia, mostra a canção Imaginário, música ainda inédita da dupla, dando o arremate no conjunto de parceiros que, bem vasto, será evocado animicamente através do conjunto de obra apresentado no roteiro.
E já com a festa pronta, após uma conversa entre os amigos Helton Altman e Gudin (quem não se lembra do velho Bar Vou Vivendo, um dos frutos dessa parceria?), veio à luz a participação de Maria Rita que, ao saber da homenagem, garantiu na hora sua afetiva presença.
Para o encerramento, o homenageado sobe ao palco, Eduardo Gudin, acompanhado por Ilana Volcov e Selma Boragian, vocalistas de seu grupo Notícias Dum Brasil, para a interpretação da histórica e lacerante Mordaça, emoção que sobrevive e deságua na festa contagiante de Thobias da Vai Vai, acompanhado pelas pastoras e conjunto, com o recente samba Praça 14 Bis. Letra e música de Gudin, esse samba deflagra nossa essência paulista, e a compartilha com o público, respirando, e fazendo-se respirar, a energia incessante de um artista que, em movimento e atividade contínuos, vem desenhando, e mapeando, os retratos de uma alma brasileira cantada, e encantada, em nome de uma arte maior.
FICHA TÉCNICA
CONCEPÇÃO:
ARRANJOS E DIREÇÃO MUSICAL: Eduardo Gudin
ROTEIRO E DIREÇÃO CÊNICA / ARTÍSTICA e TEXTOS: Heron Coelho
ARTISTAS CONVIDADOS (INTÉRPRETES)
DIAS 25 e 26.01.2007
Paulinho da Viola
Vânia Bastos
Guinga
Jair
Rodrigues
Thobias e ala da Vai - Vai
*
Participação das cantoras Ilana Volcov e Selma Boragian com o
artista homenageado Eduardo Gudin
DIAS 27 E 28.01.2007
Maria Rita
Fátima Guedes
Elton Medeiros
Mariana Aydar
Ná Ozzetti
D. Inah
Thobias e ala da Vai – Vai
MÚSICOS (BANDA)
Cristóvão Bastos: piano
Zeca Assumpção: contra-baixo
Guello: percussão
Teco Cardoso: sopros
Edson José Alves: violão
Edu Ribeiro: bateria
Milton Mori: cavaquinho
Textos (vozes): Paulo Vanzolini, Maria Alice Vergueiro, Georgette Fadel, Vânia Bastos, Joana Gudin, Ivan Kraut, Tom Zé e Marília Medalha.
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Cristina San e Fagner Vallilo – CASA4
DESENHO DE LUZ: Taty Kanter / Heron Coelho